Voz dos Oceanos
Primeiro mês do ano fortalece a esperança para 2026 e o futuro do planeta

Há uma frase que ouço sempre quando falamos sobre nosso trabalho pelos oceanos, sobre a invasão dos plásticos, dos microplásticos e sobre as mudanças climáticas: "Vocês estão enxugando gelo".
Hoje, depois de quatro anos de expedição Voz dos Oceanos, cruzando três oceanos, passando por mais de 140 lugares e 17 países, posso afirmar com dados, fatos e, principalmente, com a experiência vivida no mar: não estamos enxugando gelo!
Acredito que o mundo está sim mudando. Ainda temos muitos desafios, esbarramos em alguns entraves, ficamos ansiosos com o ritmo das ações efetivas pela urgência das mudanças... Mas existe um movimento
Assistimos há anos, uma nova maratona mundial: a corrida por energias renováveis. Nossa ida a China em 2016, por exemplo, nos mostrou uma revolução em andamento. Navegamos por Xangai e, depois, dentro do país. Vimos como estavam instalando uma quantidade enorme de painéis solares. Hoje, o país tornou-se o maior produtor de energia solar do planeta.
A China amplia, anualmente, sua capacidade renovável acima que qualquer outra nação, com parques solares que se estendem por milhares de quilômetros e turbinas eólicas que transformam o vento em eletricidade limpa para centenas de milhões de pessoas.
Também testemunhei mudanças profundas na vida marinha. Quando eu era criança, ver uma baleia no mar era algo raríssimo, quase extraordinário. Mesmo na nossa primeira volta ao mundo, em 1984, avistamos apenas meia dúzia de baleias em um ano inteiro navegando pela costa brasileira. Nos últimos 20 anos, algo extraordinário aconteceu. Em 2022, foram avistadas cerca de 25 mil baleias jubarte nas águas do Brasil.
E não são apenas as baleias. O Projeto Tamar, iniciado em 1980, já ajudou a proteger mais de 40 milhões de tartarugas marinhas. A cada temporada, cerca de 2 milhões de filhotes nascem ao longo de 1.100 quilômetros de praias monitoradas, em 23 localidades, de Pernambuco a Santa Catarina.

Durante nossas expedições na Voz dos Oceanos, navegamos escutando, filmando e vendo de perto o que está acontecendo. Escutamos comunidades costeiras, cientistas, jovens, mulheres, pescadores, marisqueiras, empreendedores, povos tradicionais... Existem muitas pessoas protagonizando a transfoDaí, começa 2026 e o primeiro mês do ano nos traz boas notícias. Em 17 de janeiro entrou em vigor o Tratado Internacional do Alto-Mar, conhecido como BBNJ, finalmente reconhecendo mais de 60% dos oceanos do planeta no direito internacional. Ver esse tratado sair do papel me renovou com uma esperança profunda e concreta.
O BBNJ nasce justamente para corrigir uma lacuna histórica, estabelecendo bases legais para proteger a vida marinha em águas internacionais, exigir avaliações de impacto ambiental antes de grandes atividades, fortalecer a cooperação científica e garantir uma partilha mais justa dos benefícios gerados pelos recursos genéticos do oceano.
Tratados como o BBNJ são essenciais. Mas eles não operam milagres sozinhos. Um acordo internacional só ganha força real quando é compreendido pela sociedade, incorporado às políticas públicas e transformado em educação, cultura e consciência coletiva. Sem isso, ele corre o risco de existir apenas nos documentos oficiais.

E acabamos de ter mais uma notícia que entra oficialmente para a lista da ESPERANÇA. Na última quinta-feira, dia 22, a França colocou em vigor a Lei n° 2025-188, de 27 de fevereiro de 2025, que visa proteger a população dos riscos ligados às substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas (PFAS).
O que torna essa decisão ainda mais poderosa é o contexto. A França abriga uma das maiores e mais influentes indústrias de cosméticos do mundo, a maior da Europa. Um setor que movimenta cerca de US$ 17,5 bilhões, gera empregos, inovação e exportações globais. Mesmo assim, o país escolheu liderar. Escolheu dizer que crescimento econômico não pode continuar baseado em substâncias que deixam uma herança tóxica permanente no planeta.
Essa lei proíbe a produção, a importação e a venda de cosméticos e da maior parte das roupas e têxteis que contenham PFAS, os chamados químicos eternos. Substâncias criadas para conveniência, para dar impermeabilidade e resistência a manchas, mas que não se degradam na natureza. Elas contaminam solos, rios, oceanos, biodiversidade e se acumulam silenciosamente no corpo humano.
Quando conecto o Tratado Internacional do Alto Mar com essa lei francesa contra os químicos eternos, enxergo algo maior se formando. Uma mudança de mentalidade. Um entendimento de que saúde humana, oceanos, clima e consumo são partes do mesmo sistema. Uma grande onda de transformação.
Por isso repito: não estamos enxugando gelo. Estamos mudando a rota. E esperança não é ingenuidade. É decisão. É escolher agir, apesar dos desafios. É reconhecer que ainda há muito a ser feito, sim, mas também reconhecer o quanto já avançamos.
O oceano vivo, resiliente e poderoso, me mostra todos os dias que vale a pena continuar acreditando.

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