segunda-feira, 27 de março de 2023

Documento com confissão de militar sobre caso Stuart Angel causa mobilização

 Documento com  confissão de militar sobre caso Stuart Angel causa mobilização


Por Bolívar Torres

 

Stuart Angel morreu durante a ditadura militar
Stuart Angel morreu durante a ditadura militar Reprodução

Até cerca de 17h30 da última sexta-feira, 24, um item com supostas informações sobre a morte de Stuart Edgar Angel foi anunciado em um pregão do site do leiloeiro Alberto Lopes. Com preço inicial de R$ 800, as duas páginas datadas de 30 de março de 1976 e com carimbo de registro em cartório traziam uma declaração chocante e que poderia ser bombástica. Um militar da Aeronáutica confessava ali que teria participado do interrogatório e das torturas que levaram à morte do ex-remador por agentes da ditadura militar, em maio de 1971. Em detalhes, ele contava como o filho da estilista Zuzu Angel teria sido vítima de "práticas comuns na Base Aérea do Galeão", para onde ele foi levado após sua prisão, como pau-de-arara e eletrochoques. Dizia também que o corpo de Stuart teria sido transportado em um helicóptero e jogado no mar (versão nunca antes confirmada). O caso foi abordado na coluna de Dorrit Harazim neste domingo.

Anúncio de leilão de documento sobre assassinato de Stuart Angel — Foto: Reprodução site Alberto Lopes Leiloeiro

Os papéis amarelados foram anunciados como uma "excelente oportunidade para colecionismo e pesquisadores, sobre um dos momentos mais sombrios e nebulosos da história do Brasil”. Num primeiro momento, a venda de um documento dessa natureza e com tantos detalhes causou revolta, provocando uma nota de repúdio do Instituto Herzog. A jornalista Hildergard Angel, irmã de Stuart, soube do leilão marcado para 5 de abril e, com a ajuda de seus advogados, começou um movimento de mobilização para suspendê-lo. No fim da tarde de sexta-feira, o papel foi retirado do site com a promessa de ser entregue à família de Stuart.

E é aí que um novo capítulo sobre a história desse documento começa. A peça está mobilizando historiadores ligados à Comissão Nacional da Verdade (CNV) ouvidos pelo GLOBO, que buscam, agora, checar se é verdadeira ou se trata de uma peça de ficção. Vários pontos levam até essa dúvida. Para começar, o autor da declaração, identificado no documento como tenente da aeronáutica Marco Aurélio de Carvalho, não é conhecido dos estudiosos do período. De acordo com historiadores ouvidos pela reportagem, o seu nome não consta no “Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964-1985)”, de 2009, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, tampouco do relatório da Comissão Nacional da Verdade, de 2014.

Documento supostamente assinado em 1976 traz detalhes sobre morte de Stuart Angel — Foto: Reprodução site Alberto Lopes Leiloeiro

Documento supostamente assinado em 1976 traz detalhes sobre morte de Stuart Angel — Foto: Reprodução site Alberto Lopes Leiloeiro

Segunda página do documento. Abaixo, o carimbo do tabelião — Foto: Reprodução site Alberto Lopes Leiloeiro

Segunda página do documento. Abaixo, o carimbo do tabelião — Foto: Reprodução site Alberto Lopes Leiloeiro

- Para a Comissão Nacional da Verdade, dois ex-militares deram depoimentos não identificados sobre o caso de Stuart Angel, o que era permitido pelo inciso I do artigo 4º da lei de criação da CNV, a lei federal nº 12.528/2011 - diz Pádua Fernandes, ex-pesquisador da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” e da CNV, e pesquisador na área de Direito, Memória e Justiça de Transição filiado ao Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS). - No entanto, o suposto documento de 1976 parece improvável, pois esse ano era de uma época ainda de muitos desaparecimentos forçados. O AI-5 continuava vigente.

Segundo Pádua, levar um documento como esse a um órgão ligado ao Estado, como um cartório, significava correr risco de morte.

- Por essa razão, em geral essas declarações que denunciavam a repressão política eram entregues a outras entidades, que passaram a fazer campanha pela volta da democracia - diz o pesquisador. - Na pesquisa documental, sabemos que o teor de verdade do que um documento diz não significa que ele seja autêntico: documentos autênticos podem perfeitamente conter informações falsas, e o inverso também acontece. Qualquer documento precisa ser checado a partir de suas características materiais, e analisado e interpretado de acordo com sua época e sua possível origem

A estilista Zuzu Angel também foi morta por agentes da ditadura — Foto: Reprodução

A estilista Zuzu Angel também foi morta por agentes da ditadura — Foto: Reprodução

Professora de História do Brasil República UFF e pesquisadora sênior da CNV, Angélica Müller ressalta que o desaparecimento forçado é "a mais cruel das violações aos Direitos Humanos".

- Trata-se de um evento que atinge a vítima e a história das famílias, que precisam trabalhar com a impossibilidade da presença de um corpo para ser enterrado, e fazer o luto, e do acesso à informação do que realmente aconteceu com seu ente querido - diz Müller. - É um passado que se faz sempre presente. Quando surge um documento desta natureza, é sempre uma possibilidade que se reaviva nesse familiar de encontrar alguma pista sobre o que aconteceu. E torna-se natural que historiadores, peritos, juristas e os próprios familiares e a comunidade envolvida busquem checar informações para encontrar evidências de autenticidade das informações ou não.

Hildegard Angel, escritora e filha da estilista Zuzu Angel — Foto: Reprodução/Instagram

Hildegard Angel, escritora e filha da estilista Zuzu Angel — Foto: Reprodução/Instagram

A autenticidade do documento, que teria sido encontrado em uma barraca da Praça XV, no Centro do Rio, não é questionada por Hildergard Angel. Porém ainda não houve confirmação de que a cópia da declaração assinada se encontra de fato no registro do cartório.

- Foi uma busca de mais de 50 anos - disse Hildegard Angel na noite de sexta-feira, muita emocionada. - Este é um momento histórico. Na carta fica claro que meu irmão era uma pessoa dócil. Foi preso sem reagir, nem estava armado. Não era um homem violento, era um idealista.

A jornalista ainda não tem certeza sobre o destino do documento, mas não descarta doá-lo para o Arquivo Nacional.

Chama a atenção na confissão o fato de o declarante em questão ter o mesmo nome de um personagem do filme "Zuzu Angel" (2006), de Sergio Rezende. Em uma cena do filme, a estilista, vivida por Patrícia Pillar na ficção, recebe um bilhete escrito por este personagem, um tenente que teria participado do interrogatório de Stuart Angel (Daniel Oliveira) e é interpretado no longa pelo ator Aramis Trindade. O papel traz frases idênticas às do documento do leilão. Nele se lê:

À esquerda, frame do filme "Zuzu Angel"; à direita, documento encontrado na Praça XV com suposta confissão de militar sobre o assassinato de Stuart Angel — Foto: Reprodução YouTube/ Reprodução site Alberto Lopes Leiloeiro

À esquerda, frame do filme "Zuzu Angel"; à direita, documento encontrado na Praça XV com suposta confissão de militar sobre o assassinato de Stuart Angel — Foto: Reprodução YouTube/ Reprodução site Alberto Lopes Leiloeiro

"Eu, Marco Aurélio Carvalho, Oficial da Aeronáutica, oficial da Aeronáutica, abaixo assinado, por livre espontânea vontade presto esse depoimento e me responsabilizo inteiramente por ele". E, em seguida: "Servi dois anos na Base Aérea do Galeão, no serviço de informações. Sob ordens de meus oficiais superiores investiguei e participei da prisão do civil Stuart Edgar Angel Jones, codinome "Paulo".

Daniel Oliveira e Patrícia Pillar em cena do filme "Zuzu Angel" — Foto: Divulgação

Daniel Oliveira e Patrícia Pillar em cena do filme "Zuzu Angel" — Foto: Divulgação

A semelhança com o conteúdo da carta que aparece no roteiro do filme é inegável:

"Meu nome é Marco Aurélio Carvalho, Oficial da Aeronáutica. Presto este depoimento por livre e espontânea vontade. Servi dois anos na Base Aérea do Galeão. Sob ordens de meus oficiais superiores investiguei e participei da prisão do civil Stuart Edgar Angel Jones".

Um fragmento do bilhete inclusive aparece em um plano do longa-metragem, com a mesma fonte, quebra de parágrafos e espaçamento do documento.

A segunda página do documento, porém, não aparece no filme. Nela há um carimbo de um tabelionato localizado, à época, na Rua do Rosário.

Outro trecho também aparece tanto no bilhete do filme quanto no documento: "Também participei do interrogatório do civil Stuart Angel. Primeiro em uma sala da base, depois no pátio".

No final do texto, há ainda uma menção ao preso Alberto Dias, personagem que também não é reconhecido pelos historiadores, mas que aparece no filme. Em textos da época do lançamento do filme, o personagem é apresentado como uma versão ficcional de Alex Polari, que realmente escreveu uma carta a Zuzu Angel e denunciou a tortura sofrida pelo filho dela.

Uma hipótese é que o documento agora retirado do leilão seja na verdade o próprio bilhete produzido pela equipe do filme para aparecer na cena. Após as filmagens, ele pode ter ficado com um membro da equipe e, 17 anos depois, acabou na Praça XV.

Essa possibilidade não é descartada pelo diretor de arte do longa, Marcos Flaksman. Ele recorda ter produzido um bilhete para a cena, embora se diga incapaz de identificá-lo como a peça que reapareceu no leilão. Ele também não se lembra de ter produzido um carimbo, como o que aparece na segunda página da declaração. O documento foi assinado 15 dias antes da morte de Zuzu Angel, no 14 de abril. No filme, ela recebe a carta pouco antes de ser assassinada.

Nem o diretor Sergio Rezende nem o roteirista Marcos Bernstein recordam de como construíram a cena e os personagens de Dias e Carvalho. Rezende acredita que os ficcionalizou a partir de outras figuras históricas, mas não pode afirmar isso.

- Já tem quase 20 anos... - diz Bernstein. - A gente faz essa ficcionalização e depois nem sabe mais o que é fato ou não.

O ator Aramis Trindade, que encarna Marco Aurélio no filme, por sua vez, tem lembranças mais claras de sua preparação para o papel. Segundo ele, Rezende teria lhe explicado que se tratava de um personagem fictício, baseado em outro oficial.

Na época em que Stuart Angel foi morto, o ex-comandante da Base Aérea do Galeão era o brigadeiro reformado Jorge José de Carvalho, que divide o mesmo sobrenome com o suposto autor de declaração.

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