segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Campanha ou guerra?

Arlete Sampaio

Qualquer análise sobre o que significa este segundo turno deve ser precedida por uma correta percepção sobre o que estamos travando: isso é uma campanha ou é uma guerra?

A última semana de 1º turno e o início da primeira semana do 2º turno mostram que não estão fazendo campanha contra Dilma. Estão travando uma guerra.

Campanha insidiosa não é campanha, é guerra. Campanha que abusa do sentimento religioso não é campanha, é cruzada. Campanha que inventa frases nunca proferidas por Dilma para demonizá-la não é campanha, é crime.

A quem interessa esse clima de guerra? A ninguém que cultive um mínimo de espírito democrático. A ninguém que tenha esclarecimento suficiente para saber que uma campanha eleitoral não é um plebiscito sobre questões bioéticas que são complexas, que envolvem os três poderes da República e que merecem um tratamento sério, e não sua banalização e uso preconceituoso.

Não era para ser isso, mas o segundo turno pode se tornar uma batalha do esclarecimento contra o obscurantismo. Voltamos ao século XVIII. É lá, no século XVIII, que os setores elitistas ultraconservadores insistem em querer manter o Brasil, em inúmeras questões. E é lamentável que parte considerável dos que se dizem democratas se renda a esse senhorio e aceite entrar pela porta dos fundos desse condomínio.

Ao percebermos esse quadro, é preciso uma mudança de postura. Da candidata, dos partidos, dos militantes, e principalmente dos cidadãos que vêem sua cidadania ser arranhada pelas patas do reacionarismo; dos que são ameaçados em seu direito de discernir corretamente sobre o que
está em jogo, diante de uma pregação que não é só destinada ao 2º turno, mas até a um 3º turno da eleição presidencial.

Todos os setores democráticos e populares, os que votaram em Marina e mesmo parte dos que votaram em Serra têm o dever de entender o que se está passando. A candidatura adversária está sendo capturada pelo reacionarismo. O candidato Serra, que se dizia orgulhoso de sua biografia, será que ainda faz questão de preservá-la? É o que veremos, não no horário eleitoral gratuito, mas nas ruas, nos panfletos apócrifos, nas mensagens que destilam ódio pela internet, nos pronunciamentos de seu vice (seja lá quem for).

As três principais candidaturas (Dilma, Serra e Marina) fizeram um primeiro turno relativamente tranqüilo, salvo pelas duas últimas semanas de ataques irracionais à candidata governista. Dilma com um programa propositivo, Serra fingindo não ser de oposição e Marina falando, justamente, contra a polarização (que ela paradoxalmente contribuiu para produzir, com o 2º turno).

Segundo turno, não tem jeito: é plebiscito. Ele representa um instrumento de grande importância em nosso sistema político, pois garante que o escolhido seja de fato respaldado pela ampla maioria dos eleitores. Por isso, os candidatos são obrigados a mostrar quem são, o que representam e quem representam.

É disso que se trata: a partir de agora, vai ser preciso dar nome aos bois e às boiadas. Dilma ultrapassou o teto histórico da votação da esquerda em primeiro turno, mesmo das votações dadas às campanhas vitoriosas de Lula. É um feito que demonstra o avanço conquistado pelos movimentos sociais e suas organizações e pelo amadurecimento do eleitorado brasileiro, facilitado por um conjunto de políticas públicas que mostrou as diferenças abissais do governo Lula em relação a qualquer outro governo.

Devemos pensar em três frentes: na política, na questão ambiental e no desenvolvimento do país. Na política, o que está em jogo é o enraizamento da participação popular no desenho das políticas públicas e o fortalecimento das classes sociais menos favorecidas, em sua luta não apenas por ascensão econômica, mas por protagonismo político. Isso é algo que incomoda muita gente e que a ultradireita quer eliminar a todo custo.

Na questão ambiental, há uma guerra do setor predatório do agronegócio contra Dilma. Basta ver que os mapas de votação que dão maioria a Serra localizam-se fortemente em Estados e localidades que têm os maiores focos de agronegócio predatório. É só ver quem está do lado de Serra e os ruralistas que o apóiam.

Já o modelo de desenvolvimento sustentável com inclusão social deve mostrar suas diferenças com o modelo de desenvolvimento excludente, privatista e predatório. Vamos ter que lembrar dos vôos de galinha, dos “inimpregáveis”, dos “vagabundos” (foi assim mesmo que FHC denominou os servidores públicos aposentados), da época em que se considerava delírio um salário mínimo de100 dólares (isso mesmo, hoje daria menos de 170 reais).

Será preciso mostrar o que fizemos em crescimento econômico e em desenvolvimento social das regiões mais pobres. Teremos que relembrar o que era a Petrobrás e o BNDES há 8 anos e o que eles representam agora, ao terem sido transformados em alavancas do desenvolvimento nacional, com impactos positivos até sobre a América do Sul.

Será preciso mostrar o que se fez política externa, que de um lado simboliza a importância do Brasil no exterior e, de outro, atiça os que têm o complexo de vira latas.

Será preciso comparar o que se fez na Saúde no Governo Lula com o caos da saúde em São Paulo, confrontando as opções de gestão: de um lado, o fortalecimento da gestão pública; do outro, o desmonte, a terceirização, a falta de investimentos. Será preciso defender o Plano Nacional de Direitos Humanos 3, inclusive com a ajuda dos que foram responsáveis pela área de direitos humanos durante a gestão anterior.

Questões como essas deveriam ser o cerne do debate. Mas isso é para uma campanha. Para uma guerra, é mais do que urgente que não só os partidos coligados à candidatura Dilma, mas todos os movimentos de cidadania que lutam arduamente pela melhoria da qualidade do voto, pelo aperfeiçoamento da nossa democracia, pela não deturpação e manipulação do debate eleitoral cumpram a tarefa de alertar os cidadãos e cidadãs sobre as ações perversas dos que se aproveitam desse momento eleitoral e do espaço dado pela candidatura adversária para esgrimir suas ignomínias.

É preciso uma nova campanha da legalidade, com um trabalho militante de recolhimento de denúncias e acionamento penal daqueles que se acham livres para produzir atentados à democracia. Tenho a certeza de que, se isso for estancado, deixaremos de travar uma guerra e poderemos democraticamente iniciar uma campanha.

E poderemos certamente descobrir que os que apostam no envenenamento do debate eleitoral são provavelmente os mesmos que acabaram derrotados na luta pela redemocratização do país. Luta que custou muitas vidas e foi vitoriosa graças a muita mobilização popular.

É essa história que devemos defender neste momento em que não podemos cair na defensiva, nem nos acovardar pelas ameaças infames dos profetas do golpismo e dos Zés do Apocalipse.

(*) Arlete Sampaio é Deputada Distrital eleita pelo PT-DF, foi Vice-Governadora do DF (1995-1998) e Secretária Executiva do Ministério do Desenvolvimento Social do Governo Lula.
Comentário: Lilia Diniz - Não era para ser isso, mas o 2° turno pode se tornar uma batalha do esclarecimento contra o obscurantismo. Voltamos ao século XVIII. É lá, no século XVIII, que os setores elitistas ultraconservadores insistem em querer manter o Brasil. E é lamentável que parte considerável dos que se dizem democratas se renda a esse senhorio e aceite entrar pela porta dos fundos desse condomínio. O candidato Serra, que se dizia orgulhoso de sua biografia, será que ainda faz questão de preservá-la? É o que veremos, não no horário eleitoral gratuito, mas nas ruas, nos panfletos apócrifos, nas mensagens que destilam ódio pela internet, nos pronunciamentos de seu vice.

Foi demais a festa na Comunidade Retiro dos Bois, às margens do Rio Carinhanha, divisa de Minas com a Bahia

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

RedeCCom e Pontos de Cultura do Norte e Noroeste de Minas Gerais abrem as porteiras hoje para o Grande Sertão

PARA O BRASIL SEGUIR MUDANDO

"Os resultados da eleição do dia 3 de outubro são uma grande vitória do povo brasileiro. Dilma Rousseff e Michel Temer obtiveram mais de 47 milhões de votos, patamar semelhante aos de Lula nos primeiros turnos das eleições de 2002 e 2006.

Os Partidos que integram a coligação vitoriosa elegeram 11 governadores e disputam o segundo turno em 10 outros estados. Com mais de 350 deputados, sobre 513, entre aliados e coligados, o próximo Governo terá a maioria da Câmara Federal. Será também majoritário no Senado, com mais de 50 senadores. Terá, pelo menos, 734 deputados estaduais.

Estão reunidas, assim, todas as condições para a vitória definitiva em 31 de outubro. Para tanto, é necessário clareza política e capacidade de mobilização.

A candidatura da oposição encontra-se mergulhada em contradições. Tentam atrair os verdes, mas não podem tirar o velho e conservador DEM de seu palanque. Denuncia “aparelhismos”, mas já está barganhando cargos em um possível ministério. Proclama-se democrata, mas persegue jornalistas e censura pesquisas. Seus partidários tentam sair dessa situação por meio de uma série de manobras que buscam confundir o debate político nacional. Espalham mentiras e acusações infundadas.

Mas o que está em jogo hoje no país é o confronto entre dois projetos. De um lado, o Brasil do passado, da paralisia econômica, do gigantesco endividamento interno, mas também da dívida externa e da submissão ao FMI. O Brasil que quase foi à falência nas crises mundiais de 95, 97 e 98.

O Brasil de uma carga tributária que saltou de 27% para 35% do PIB. O Brasil dos apagões, e do sucateamento da infraestrutura. O Brasil da privataria, que torrou nossas empresas públicas por 100 bilhões de dólares e conseguiu a proeza de dobrar nossa dívida pública. E já estão anunciando novas privatizações, dentre elas a do Pré Sal.

O Brasil do passado, do Governo FHC, que nosso adversário integrou, é o país que não soube enfrentar efetivamente a desigualdade social e não tinha vergonha de afirmar que uma parte da população brasileira era “inempregável”. Portanto, o Brasil do desemprego. Era o Brasil do desmonte do Estado e da perseguição aos funcionários.

Era o Brasil das universidades à beira do colapso e da proibição do Governo Federal de custear escolas técnicas. Mas, sobretudo, era o país da desesperança, de governantes de costas para seus vizinhos da América Latina, cabisbaixos diante das potências estrangeiras em cujos aeroportos se humilhavam tirando os sapatos.

Em oito anos o Brasil começou a mudar. Uma grande transformação se iniciou e deverá continuar e aprofundar-se no Governo Dilma.

O Brasil de Lula, hoje, e o de Dilma, amanhã, é e será o país do crescimento acelerado que gera cada vez mais emprego e renda. Mas um país que cresce porque distribui renda. Que retirou 28 milhões de homens e mulheres da pobreza. Que possibilitou a ascensão social de 36 milhões de brasileiros. Que criou mais de 14 milhões de empregos formais. Que expandiu o crédito, sobretudo para os de baixa renda. Que fez crescer sete vezes os recursos para a agricultura familiar. E que fez tudo isso sem inflação ou ameaça dela. O Brasil de Lula e de Dilma é o país que possui uma das mais baixas dívidas internas do mundo. Que deixou de ser devedor internacional, passando à condição de credor. Que não é mais servo do FMI. É o país que enfrentou com tranquilidade a mais grave crise econômica mundial. Foi o último a sofrer seus efeitos e o primeiro a sair dela.

Dilma continuará a reconstruir e fortalecer o Estado e a valorizar o funcionalismo. O Brasil de Lula e de Dilma está reconstruindo aceleradamente sua infraestrutura energética, seus portos e ferrovias. É o Brasil do PAC. O Brasil do Pré Sal. O Brasil do Bolsa Família. É o Brasil do Minha Casa, Minha Vida, que vai continuar enfrentando o problema da moradia, sobretudo para as famílias de baixa renda.

Nosso desenvolvimento continuará sendo ambientalmente equilibrado, como demonstram os êxitos que tivemos no combate ao desmatamento e na construção de alternativas energéticas limpas. Manteremos essa posição nos debates internacionais sobre a mudança do clima.

No Brasil de Lula e de Dilma foi aprovado o FUNDEB que propiciou melhoria salarial aos professores da educação básica. É o país onde os salários dos professores universitários tiveram considerável elevação. Onde se criaram 14 novas universidades federais e 124 extensões universitárias. Onde mais de 700 mil estudantes carentes foram beneficiados com as bolsas de estudo do Prouni e 214 Escolas Técnicas Federais foram criadas. Onde 40 bilhões de reais foram investidos em ciência e tecnologia. Esse Brasil continuará a desenvolver-se porque o Governo Dilma cuidará da pré-escola à pós-graduação e fará da educação de qualidade o centro de suas preocupações. O Brasil de Dilma continuará dando proteção à maternidade e protegendo, com políticas públicas, as mulheres da violência doméstica. Será o Brasil que dará prosseguimento às políticas de promoção da igualdade racial.

Os alicerces de um grande Brasil foram criados. Mais que isso, muitas das paredes desta nova casa já estão erguidas. A obra não vai parar.

Vamos prosseguir no esforço de dar saúde de qualidade com mais UPAS, Samu, Brasil Sorridente, Médicos de Família. Vamos continuar o grande trabalho de garantir a segurança de todos os brasileiros, com repressão ao crime organizado e controle das fronteiras, mas, sobretudo, com respeito aos direitos humanos, ações sociais e a participação da sociedade como vêm acontecendo com as UPP.

Vamos continuar a ser um país soberano, solidário com seus vizinhos. Um país que luta pela paz no mundo, pela democracia, pelo respeito aos direitos humanos. Um país que luta por uma nova ordem econômica e política mundial mais justa e equilibrada.

Os brasileiros continuarão a ter orgulho de seu país. Mas, sobretudo, queremos aprofundar nossa democracia. A grande vitória que a coligação PARA O BRASIL SEGUIR MUDANDO obteve nas eleições para o Congresso Nacional permitirá que Dilma Rousseff tenha uma sólida base de sustentação parlamentar.

Diferentemente do que ocorreu entre 1995 e 2002, a nova maioria no Congresso não é resultado de acordos pós-eleitorais. Ela é o resultado da vontade popular expressa nas urnas. Essa maioria não será instrumento para esmagar as oposições, como no passado. Queremos um Brasil unido em sua diversidade política, étnica, cultural e religiosa.

Por essa razão repudiamos aqueles que querem explorar cinicamente a religiosidade do povo brasileiro para fins eleitorais. Isso é um desrespeito às distintas confissões religiosas. Tentar introduzir o ódio entre as comunidades religiosas é um crime. Viola as melhores tradições de tolerância do povo brasileiro, que são admiradas em todo o mundo.

O Brasil republicano é um Estado laico que respeita todas as convicções religiosas. Não permitiremos que nos tentem dividir.

O Brasil de Dilma, assim como o de Lula, é e será uma terra de liberdade, onde todos poderão, sem qualquer tipo de censura, expressar suas idéias e convicções.

Será o Brasil que se ocupará de forma prioritária das crianças e dos jovens, abrindo-lhes as portas do futuro. Por essa razão dará ênfase à educação e à cultura. Mas será também um país que cuidará de seus idosos, de suas condições de vida, de sua saúde e de sua dignidade.

Sabemos que os milhões que estiveram conosco até agora serão muitos mais amanhã.

Para dar continuidade a essa construção iniciada em 2003 convocamos todos os homens e mulheres deste país. A hora é de mobilização. É importante que nas ruas, nas escolas, nas fábricas e no campo a voz da mudança se faça ouvir mais fortemente do que a voz do atraso, da calúnia, do preconceito, da mentira, dos privilégios.

À luta, até a vitória.

Brasília, 07 de outubro de 2010.

Coligação Para o Brasil Seguir Mudando"'

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Professores e Pesquisadores de Filosofia Apoiam Dilma Rousseff para a

Professores e pesquisadores de Filosofia, abaixo assinados, manifestamos
nosso apoio à candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República.
Seguem-se nossas razões.

Os valores de nossa Constituição exigem compromisso e responsabilidade
por parte dos representantes políticos e dos intelectuais

Nesta semana completam-se vinte e dois anos de promulgação da
Constituição Federal. Embora marcada por contradições de uma sociedade
que recém começava a acordar da longa noite do arbítrio, ela logrou
afirmar valores que animam sonhos generosos com o futuro de nosso país.
Entre os objetivos da República Federativa do Brasil estão “construir
uma sociedade livre, justa e solidária”, “garantir o desenvolvimento
nacional”, “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais”.

A vitalidade de nossa República depende do efetivo compromisso com tais
objetivos, para além da mera adesão verbal. Por parte de nossos
representantes, ele deve traduzir-se em projetos claros e ações
efetivas, sujeitos à responsabilização política pelos cidadãos. Dos
intelectuais, espera-se o exame racionalmente responsável desses
projetos e ações.

Os oito anos de governo Lula constituíram um formidável movimento na
direção desses objetivos. Reconheça-se o papel do governo anterior na
conquista de relativa estabilidade econômica. Ao atual governo, porém,
deve-se tributar o feito inédito de conciliar crescimento da economia,
controle da inflação e significativo desenvolvimento social. Nesses oito
anos, a pobreza foi reduzida em mais de 40%; mais de 30 milhões de
brasileiros ascenderam à classe média; a desigualdade de renda sofreu
uma queda palpável. Não se tratou de um efeito natural e inevitável da
estabilidade econômica. Trata-se do resultado de políticas públicas
resolutamente implementadas pelo atual governo – as quais não se limitam
ao Bolsa Família, mas têm nesse programa seu carro-chefe.

Tais políticas assinalam o compromisso do governo Lula com a realização
dos objetivos de nossa República. Como ministra, Dilma Rousseff exerceu
um papel central no sucesso dessa gestão. Cremos que sua chegada à
Presidência representará a continuidade, aprofundamento e
aperfeiçoamento do combate à pobreza e à desigualdade que marcou os
últimos oito anos.

Há razões para duvidar que um eventual governo José Serra ofereça os
mesmos prospectos. É notório o desprezo com que os programas sociais do
atual governo – em particular o Bolsa Família – foram inicialmente
recebidos pelos atores da coligação que sustenta o candidato. Frente ao
sucesso de tais programas, José Serra vem agora verbalizar sua adesão a
eles, quando não arroga para si sua primeira concepção. Não tendo ainda,
passado o primeiro turno, apresentado um programa de governo, ele nos
lança toda sorte de promessas – algumas das quais em franco contraste
com sua gestão como governador de São Paulo – sem esclarecer como
concretizá-las. O caráter errático de sua campanha justifica ceticismo
quanto à consistência de seus compromissos. Seu discurso pautado por
conveniências eleitorais indica aversão à responsabilidade que se espera
de nossos representantes. Ironicamente, os intelectuais associados ao
seu projeto político costumam tachar o governo Lula e a candidatura
Dilma de populistas.

O compromisso com a inclusão social é um compromisso com a democracia

A despeito da súbita conversão da oposição às políticas sociais do atual
governo, ainda ecoam entre nós os chavões disseminados por ela sobre os
programas de transferência de renda implementados nos últimos anos: eles
consistiriam em mera esmola assistencialista desprovida de mecanismos
que possibilitem a autonomia de seus beneficiários; mais grave,
constituiriam instrumento de controle populista sobre as massas pobres,
visando à perpetuação no poder do PT e de seus aliados. Tais chavões
repousam sobre um equívoco de direito e de fato.

A história da democracia, desde seus primeiros momentos na pólis
ateniense, é a história da progressiva incorporação à comunidade
política dos que outrora se viam destituídos de voz nos processos
decisórios coletivos. Que tal incorporação se mostre efetiva pressupõe
que os cidadãos disponham das condições materiais básicas para seu
reconhecimento como tais. A cidadania exige o que Kant caracterizou como
independência: o cidadão deve ser “seu próprio senhor (sui iuris)”, por
conseguinte possuir “alguma propriedade (e qualquer habilidade, ofício,
arte ou ciência pode contar como propriedade) que lhe possibilite o
sustento”. Nossa Constituição vai ao encontro dessa exigência ao
reservar um capítulo aos direitos sociais.

Os programas de transferência de renda implementados pelo governo não
apenas ajudaram a proteger o país da crise econômica mundial – por
induzirem o crescimento do mercado interno –, mas fortaleceram nossa
democracia ao criar bases concretas para a cidadania de milhões de
brasileiros. Se atentarmos ao seu formato institucional, veremos que
eles proporcionam condições para a progressiva autonomia de seus
beneficiários, ao invés de prendê-los em um círculo de dependência. Que
mulheres e homens beneficiados por tais programas confiram seus votos às
forças que lutaram por implementá-los não deve surpreender ninguém –
trata-se, afinal, da lógica mesma da governança democrática. Senhoras e
senhores de seu destino, porém, sua relação com tais forças será
propriamente política, não mais a subserviência em que os confinavam as
oligarquias.

As liberdades públicas devem ser protegidas, em particular de seus
paladinos de ocasião

Nos últimos oito anos – mas especialmente neste ano eleitoral –
assistiu-se à reiterada acusação, por parte de alguns intelectuais e da
grande imprensa, de que o presidente Lula e seu governo atentam contra
as liberdades públicas. É verdade que não há governo cujos quadros
estejam inteiramente imunes às tentações do abuso de poder; é justamente
esse fato que informa o desenvolvimento dos sistemas de freios e
contrapesos do moderno Estado de Direito. Todavia, à parte episódios
singulares – seguidos das sanções e reparos cabíveis –, um olhar sóbrio
sobre o nosso país não terá dificuldade em ver que o governo tem zelado
pelas garantias fundamentais previstas na Constituição e respeitado a
independência das instituições encarregadas de protegê-las, como o
Ministério Público, a Procuradoria Geral da República e o Supremo
Tribunal Federal.

Diante disso, foi com desgosto e preocupação que vimos personalidades e
intelectuais ilustres de nosso país assinarem, há duas semanas, um
autointitulado “Manifesto em Defesa da Democracia”, em que acusam o
governo de tramas para “solapar o regime democrático”. À conveniência da
candidatura oposicionista, inventam uma nova regra de conduta
presidencial: o Presidente da República deve abster-se, em qualquer
contexto, de fazer política ou apoiar candidaturas. Ironicamente,
observada tal regra seria impossível a reeleição para o executivo
federal – instituto criado durante o governo anterior, não sem sombra de
casuísmo, em circunstâncias que não mereceram o alarme da maioria de
seus signatários.

Grandes veículos de comunicação sistematicamente alardeiam que o governo
Lula e a candidatura Dilma representam uma ameaça à liberdade de
imprensa, enquanto se notabilizam por uma cobertura militante e nem
sempre responsável da atual campanha presidencial. As críticas do
Presidente à grande imprensa não exigem adesão, mas tampouco atentam
contra o regime democrático, em que o Presidente goza dos mesmos
direitos de todo cidadão, na forma da lei. Propostas de aperfeiçoamento
dos marcos legais do setor devem ser examinadas com racionalidade, a
exemplo do que tem acontecido em países como a França e a Inglaterra.

Se durante a campanha do primeiro turno houve um episódio a ameaçar a
liberdade de imprensa no Brasil, terá sido o estranho requerimento da
Dra. Sandra Cureau, vice-procuradora-geral Eleitoral, à revista Carta
Capital. De efeito intimidativo e duvidoso lastro legal, o episódio não
recebeu atenção dos grandes veículos de comunicação do país, tampouco
ensejou a mobilização cívica daqueles que, poucos dias antes, publicavam
um manifesto contra supostas ameaças do Presidente à democracia
brasileira. O zelo pelas liberdades públicas não admite dois pesos e
duas medidas. Quando a evocação das garantias fundamentais se vê
aliciada pelo vale-tudo eleitoral, a Constituição é rebaixada à mera
retórica.

Estamos convictos de que Dilma Rousseff, se eleita, saberá proteger as
liberdades públicas. Comprometidos com a defesa dessas liberdades,
recomendamos o voto nela.

Em defesa do Estado laico e do respeito à diversidade de orientações
espirituais, contra a instrumentalização política do discurso religioso

A Constituição Federal é suficientemente clara na afirmação do caráter
laico do Estado brasileiro. É garantida aos cidadãos brasileiros a
liberdade de crença e consciência, não se admitindo que identidades
religiosas se imponham como condição do exercício de direitos e do
respeito à dignidade fundamental de cada um. Isso não significa que a
religiosidade deva ser excluída da cena pública; exige, porém,
intransigência com os que pregam o ódio e a intolerância em nome de uma
orientação espiritual particular.

É, pois, com preocupação que testemunhamos a instrumentalização do
discurso religioso na presente corrida presidencial. Em particular,
deploramos a guarida de templos ao proselitismo a favor ou contra esta
ou aquela candidatura – em clara afronta à legislação eleitoral. Dilma
Rousseff, em particular, tem sido alvo de campanha difamatória baseada
em ilações sobre suas convicções espirituais e na deliberada distorção
das posições do atual governo sobre o aborto e a liberdade de
manifestação religiosa. Conclamamos ambos os candidatos ora em disputa a
não cederem às intimidações dos intolerantes. Temos confiança de que um
eventual governo Dilma Rousseff preservará o caráter laico do Estado
brasileiro e conduzirá adequadamente a discussão de temas que, embora
sensíveis a religiosidades particulares, são de notório interesse
público.

O compromisso com a expansão e qualificação da universidade é condição
da construção de um país próspero, justo e com desenvolvimento
sustentável

É incontroverso que a prosperidade de um país se deixa medir pela
qualidade e pelo grau de universalização da educação de suas crianças e
de seus jovens. O Brasil tem muito por fazer nesse sentido, uma tarefa
de gerações. O atual governo tem dado passos na direção certa. Programas
de transferência de renda condicionam benefícios a famílias à manutenção
de suas crianças na escola, diminuindo a evasão no ensino fundamental. A
criação e ampliação de escolas técnicas e institutos federais têm
proporcionado o aumento de vagas públicas no ensino médio. Programas
como o PRODOCENCIA e o PARFOR atendem à capacitação de professores em
ambos os níveis.

Em poucas áreas da governança o contraste entre a administração atual e
a anterior é tão flagrante quanto nas políticas para o ensino superior e
a pesquisa científica e tecnológica associadas. Durante os oito anos do
governo anterior, não se criou uma nova universidade federal sequer; os
equipamentos das universidades federais viram-se em vergonhosa penúria;
as verbas de pesquisa estiveram constantemente à mercê de
contingenciamentos; o arrocho salarial, aliado à falta de perspectivas e
reconhecimento, favoreceu a aposentadoria precoce de inúmeros docentes,
sem a realização de concursos públicos para a reposição satisfatória de
professores. O consórcio partidário que cerca a candidatura José Serra –
o mesmo que deu guarida ao governo anterior – deve explicar por que e
como não reeditará essa situação.

O atual governo tem agido não apenas para a recuperação do ensino
superior e da pesquisa universitária, após anos de sucateamento, como
tem implementado políticas para sua expansão e qualificação – com
resultados já reconhecidos pela comunidade científica internacional. O
PROUNI – atacado por um dos partidos da coligação de José Serra –
possibilitou o acesso à universidade para mais de 700.000 brasileiros de
baixa renda. Através do REUNI, as universidades federais têm assistido a
um grande crescimento na infraestrutura e na contratação, mediante
concurso público, de docentes qualificados. Programas de fomento,
levados a cabo pelo CNPq e pela CAPES, têm proporcionado um sensível
aumento da pesquisa em ciência e tecnologia, premissa central para o
desenvolvimento do país. Foram criadas 14 novas universidades federais,
testemunhando-se a interiorização do ensino superior no Brasil, levando
o conhecimento às regiões mais pobres, menos desenvolvidas e mais
necessitadas de apoio do Estado.

Ademais, deve-se frisar que não há possibilidade de desenvolvimento
sustentável e preservação de nossa biodiversidade – temas cujo
protagonismo na atual campanha deve-se à contribuição de Marina Silva –
sem investimentos pesados em ciência e tecnologia. Não se pode esperar
que a iniciativa privada satisfaça inteiramente essa demanda. O papel do
Estado como indutor da pesquisa científica é indispensável, exigindo um
compromisso que se traduza em políticas públicas concretas. A ausência
de projetos claros e consistentes da candidatura oposicionista, a par do
lamentável retrospecto do governo anterior nessa área, motiva receios
quanto ao futuro do ensino superior e do conhecimento científico no
Brasil – e, com eles, da proteção de nosso meio-ambiente – no caso da
vitória de José Serra. A perspectiva de continuidade e aperfeiçoamento
das políticas do governo Lula para o ensino e a pesquisa universitários
motiva nosso apoio à candidatura de Dilma Rousseff.

Por essas razões, apoiamos a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência
da República. Para o povo brasileiro continuar em sua jornada de
reencontro consigo mesmo. Para o Brasil continuar mudando!

06 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Reflexões pós eleição na blogosfera

http://napraticaateoriaeoutra.org/
Marina Silva, Sensacional

Marina Silva passou um batonzinho de beterraba nas minhas previsões e as mandou direto para a zona. A “Onda Verde” foi muito maior do que se pensava, e é coisa de entrar em livro de história.

Eu sabia que ela ia vencer o Serra com tranquilidade no Rio, mas 20% em São Paulo? A mesma porcentagem no Brasil afora, quase uniformemente, concorrendo por um partido marginalmente mais organizado do que o PCO, com vários dirigentes evidentemente piores que os do PCO. Marina Silva foi a candidata que, em 2008, sonhávamos que o Gabeira seria: uma verde que tivesse penetração nas áreas mais pobres.

Meus parabéns à companheira Marina, que sempre foi tratada aqui com todo respeito (podem fuçar o arquivo aí o que vocês quiserem) e vamos ao novo cenário, no qual, inclusive, minha audiência deve permanecer alta por mais um mês.

1.

É óbvio que eu, que voto na Dilma, fiquei puto de não termos fechado no primeiro turno, mas, antes de tudo, sou um amante do bom futebol, e, como depois da final de 98, me resta aplaudir o Zidane. Quando parecia que o nível da campanha ia ser determinado pelas butinadas da Veja, Marina Silva apareceu jogando como gente grande.

No começo desse ano, eu disse: quem tiver 10% para oferecer no final do ano vai ser o sujeito mais poderoso do Brasil, e hoje Marina Silva ocupa essa posição. O cenário ainda é amplamente favorável à Dilma, mas Serra, a essa altura, aceita reflorestar São Paulo espalhando adubo com a cara para ter o apoio da candidata verde.

Diga o que quiser do PT, isso aqui resta inegável: que quadros nós formamos ao longo desses anos, hein? Aí a gente faz umas merdas e alguns deles racham com a gente, mas, de qualquer, maneira, que quadros nós formamos. Se bem que do outro lado tem o Rodrigo Maia e o Índio da Costa, tem que ver isso também.

2.

Resta saber ainda que fatores determinaram a onda verde: se tivermos 20% de ecologistas, as notícias são excelentes. Se tivermos 20% de gente que acredita em spam sobre a Dilma, as notícias são ruins.

Marina sempre teve seus 10%, que ela segurou heroicamente em condições bastante adversas. Essa turma não é do spam, e é uma boa notícia. Nós vamos ter que fazer concessões para atrair essa gente, mas, sinceramente, essa é a pior gente que nós tivemos que atrair, essas serão as piores concessões que já tivemos que fazer? Não.

Mas não há como negar que o spam nas caixas de correio e nos púlpitos teve seu papel, inclusive, creio eu, para colocar o Serra nos 30%, que nunca teria tido. A CNBB do Sudeste orientou voto contra a Dilma, e ontem, no Twitter, o Roberto Jefferson se divertia falando do efeito que teriam os sermões de domingo. O Ex-Blog do César Maia (aliás, prefeito, parabéns por ter ficado na frente do Vaguinho!) no sábado comemorava claramente que a “base” que tinha soltado os spams tinha sido muito mais eficaz do que a coordenação da campanha do Serra.

Os religiosos têm todo o direito de serem contra o aborto, como, aliás, são vários agnósticos e ateus: a discussão sobre a humanidade do feto é extraordinariamente complexa, e jamais poderá ser tratada com leveza. Sou da opinião de que devemos determinar um grau de desenvolvimento do feto a partir do qual o aborto seja proibido, como fazem na Europa, e, dentro do período precedente da gravidez, admitir que não sabemos mais do que ninguém, deixando a decisão para quem estiver na situação de tomá-la. Mas admito que haja gente que prefere jogar na defesa 100% e não correr nenhum risco de cometer um assassinato (vale dizer, isso não se aplica ao caso das células-tronco, em que os opositores da pesquisa claramente cometem assassinatos).

Mas é uma pena que esse problema real, que no mundo todo é uma questão candente, tenha sido tematizado aqui como é nos EUA, na base do escândalo e da débil mental da Monica Serra dizendo que Dilma quer matar criancinhas: vale dizer, considero absolutamente impossível que Monica Serra, que era professora de dança na Unicamp, uma dona toda modernosa, realmente acredite nisso. O que torna a coisa duplamente desprezível.

Mas o jogo é jogado. Vambora.

3.

Minha aposta é que Marina fica neutra no segundo turno. Se ela quiser apoiar alguém, consegue o que quiser. Tanto Dilma quanto Serra aceitam botar uma tribo xavante morando no Palácio do Planalto se for para conseguir o apoio da comadre do James Cameron. Mas acho que ela vai escolher a neutralidade.

Por um motivo simples. Hoje, Marina é mais poderosa que Lula. No dia seguinte à eleição, não é mais. Marina não vai ter força para cobrar os compromissos assumidos agora. Se o Serra oferecer acabar com Belo Monte, dois anos depois a bancada conservadora exige Belo Monte e, daqui a dois anos, o que importa o que pensa Marina?

E tem dois exemplos que devem favorecer a neutralidade de Marina, se ela pensar direito sobre o assunto.

O primeiro é Gabeira. Gabeira produziu a primeira onda verde, que, dentro do eleitorado que disputava, foi maior que a de Marina. Mas assim que fechou com a oposição ao Lula, deixou de ser terceira via, e passou a ser visto – injustamente, penso eu – como um tucano um pouco mais moderno do que a média. Ontem, se não fosse o embalo dado pela candidatura de Marina Silva a todos os verdes, Gabeira poderia ter sido o pior segundo colocado do país.

Torço para que Gabeira saiba ainda se reinventar, mas a decisão de se aliar ao DEM esse ano claramente foi desastrosa, e Marina tem que saber que, se fechar com Serra, é isso que estará fazendo, abraçando a Kátia Abreu.

O segundo exemplo, mais distante, mas talvez mais pertinente, é o exemplo da aliança Conservadores/Liberal-Democratas no Reino Unido. Quando acabou a eleição, era possível formar um governo Trabalhista/Liberal Democrata, bastando para isso incorporar os pequenos partidos nacionalistas. Mas a opinião pública foi radicalmente contrária a isso, porque era claro que o recado das urnas era anti-Labour. Seria ridículo se o voto nos LibDems, que era sobretudo uma expressão de um desejo de mudança, servisse para garantir a continuidade.

No Brasil a situação é inversa. O desejo de continuidade é evidente: Dilma chegou perto da maioria absoluta, Serra colocou o Lula na propaganda, e uma das forças de Marina foi ter sido ministra do Lula. A aprovação do governo é altíssima.

O voto na Marina é um voto de continuidade, com cobrança de ajustes de percurso – muitas das quais perfeitamente apropriadas. Se Marina servir para impor uma derrota a Lula, estará claramente subvertendo o sentido do voto que recebeu. Se ela desse a vitória a Serra, quando o novo governo chamasse a legião de senadores do DEM desempregados para o ministério, ou desse a Agricultura para o Ronaldo Caiado, a marca Marina Silva seria ferida de morte.

Marina entende mais de política do que a gente, e é por isso que ela deu um couro em todo mundo e nós estamos aqui escrevendo blog. Mas, se ela quiser meu conselho, é esse que dou: fique neutra, garanta que o PV não vai usar sua imagem quando negociar seu preço (meu palpite: dois vales-transportes e uma ficha telefônica) com Serra, e vá pra Búzios curtir a praia.

4.

Resumindo: fiquei puto de não termos levado no primeiro turno, mas ficarei felicíssimo de fazer concessões a Marina Silva. De agora em diante, podemos dizer à bancada do desmatamento que o outro lado do debate tem 20 milhões de votos, e isso todo mundo respeita.

Parabéns de novo à candidata verde, e fica meu apelo para que o PT dê uma esverdeada, que será muito bem-vinda.

PS: mais uma vez, derrotado por Amiano Marcelino (agora reforçado pelos sempre alertas Alexandre Nodari e Flávia Cera). Maldito. Eu teria conseguido, se não fosse por esses garotos intrometidos [é a deixa para tirarem minha máscara e descobrirem que eu sou o Japajato].

Marina Silva passou um batonzinho de beterraba nas minhas previsões e as mandou direto para a zona. A “Onda Verde” foi muito maior do que se pensava, e é coisa de entrar em livro de história.

Eu sabia que ela ia vencer o Serra com tranquilidade no Rio, mas 20% em São Paulo? A mesma porcentagem no Brasil afora, quase uniformemente, concorrendo por um partido marginalmente mais organizado do que o PCO, com vários dirigentes evidentemente piores que os do PCO. Marina Silva foi a candidata que, em 2008, sonhávamos que o Gabeira seria: uma verde que tivesse penetração nas áreas mais pobres.

Meus parabéns à companheira Marina, que sempre foi tratada aqui com todo respeito (podem fuçar o arquivo aí o que vocês quiserem) e vamos ao novo cenário, no qual, inclusive, minha audiência deve permanecer alta por mais um mês.

1.

É óbvio que eu, que voto na Dilma, fiquei puto de não termos fechado no primeiro turno, mas, antes de tudo, sou um amante do bom futebol, e, como depois da final de 98, me resta aplaudir o Zidane. Quando parecia que o nível da campanha ia ser determinado pelas butinadas da Veja, Marina Silva apareceu jogando como gente grande.

No começo desse ano, eu disse: quem tiver 10% para oferecer no final do ano vai ser o sujeito mais poderoso do Brasil, e hoje Marina Silva ocupa essa posição. O cenário ainda é amplamente favorável à Dilma, mas Serra, a essa altura, aceita reflorestar São Paulo espalhando adubo com a cara para ter o apoio da candidata verde.

Diga o que quiser do PT, isso aqui resta inegável: que quadros nós formamos ao longo desses anos, hein? Aí a gente faz umas merdas e alguns deles racham com a gente, mas, de qualquer, maneira, que quadros nós formamos. Se bem que do outro lado tem o Rodrigo Maia e o Índio da Costa, tem que ver isso também.

2.

Resta saber ainda que fatores determinaram a onda verde: se tivermos 20% de ecologistas, as notícias são excelentes. Se tivermos 20% de gente que acredita em spam sobre a Dilma, as notícias são ruins.

Marina sempre teve seus 10%, que ela segurou heroicamente em condições bastante adversas. Essa turma não é do spam, e é uma boa notícia. Nós vamos ter que fazer concessões para atrair essa gente, mas, sinceramente, essa é a pior gente que nós tivemos que atrair, essas serão as piores concessões que já tivemos que fazer? Não.

Mas não há como negar que o spam nas caixas de correio e nos púlpitos teve seu papel, inclusive, creio eu, para colocar o Serra nos 30%, que nunca teria tido. A CNBB do Sudeste orientou voto contra a Dilma, e ontem, no Twitter, o Roberto Jefferson se divertia falando do efeito que teriam os sermões de domingo. O Ex-Blog do César Maia (aliás, prefeito, parabéns por ter ficado na frente do Vaguinho!) no sábado comemorava claramente que a “base” que tinha soltado os spams tinha sido muito mais eficaz do que a coordenação da campanha do Serra.

Os religiosos têm todo o direito de serem contra o aborto, como, aliás, são vários agnósticos e ateus: a discussão sobre a humanidade do feto é extraordinariamente complexa, e jamais poderá ser tratada com leveza. Sou da opinião de que devemos determinar um grau de desenvolvimento do feto a partir do qual o aborto seja proibido, como fazem na Europa, e, dentro do período precedente da gravidez, admitir que não sabemos mais do que ninguém, deixando a decisão para quem estiver na situação de tomá-la. Mas admito que haja gente que prefere jogar na defesa 100% e não correr nenhum risco de cometer um assassinato (vale dizer, isso não se aplica ao caso das células-tronco, em que os opositores da pesquisa claramente cometem assassinatos).

Mas é uma pena que esse problema real, que no mundo todo é uma questão candente, tenha sido tematizado aqui como é nos EUA, na base do escândalo e da débil mental da Monica Serra dizendo que Dilma quer matar criancinhas: vale dizer, considero absolutamente impossível que Monica Serra, que era professora de dança na Unicamp, uma dona toda modernosa, realmente acredite nisso. O que torna a coisa duplamente desprezível.

Mas o jogo é jogado. Vambora.

3.

Minha aposta é que Marina fica neutra no segundo turno. Se ela quiser apoiar alguém, consegue o que quiser. Tanto Dilma quanto Serra aceitam botar uma tribo xavante morando no Palácio do Planalto se for para conseguir o apoio da comadre do James Cameron. Mas acho que ela vai escolher a neutralidade.

Por um motivo simples. Hoje, Marina é mais poderosa que Lula. No dia seguinte à eleição, não é mais. Marina não vai ter força para cobrar os compromissos assumidos agora. Se o Serra oferecer acabar com Belo Monte, dois anos depois a bancada conservadora exige Belo Monte e, daqui a dois anos, o que importa o que pensa Marina?

E tem dois exemplos que devem favorecer a neutralidade de Marina, se ela pensar direito sobre o assunto.

O primeiro é Gabeira. Gabeira produziu a primeira onda verde, que, dentro do eleitorado que disputava, foi maior que a de Marina. Mas assim que fechou com a oposição ao Lula, deixou de ser terceira via, e passou a ser visto – injustamente, penso eu – como um tucano um pouco mais moderno do que a média. Ontem, se não fosse o embalo dado pela candidatura de Marina Silva a todos os verdes, Gabeira poderia ter sido o pior segundo colocado do país.

Torço para que Gabeira saiba ainda se reinventar, mas a decisão de se aliar ao DEM esse ano claramente foi desastrosa, e Marina tem que saber que, se fechar com Serra, é isso que estará fazendo, abraçando a Kátia Abreu.

O segundo exemplo, mais distante, mas talvez mais pertinente, é o exemplo da aliança Conservadores/Liberal-Democratas no Reino Unido. Quando acabou a eleição, era possível formar um governo Trabalhista/Liberal Democrata, bastando para isso incorporar os pequenos partidos nacionalistas. Mas a opinião pública foi radicalmente contrária a isso, porque era claro que o recado das urnas era anti-Labour. Seria ridículo se o voto nos LibDems, que era sobretudo uma expressão de um desejo de mudança, servisse para garantir a continuidade.

No Brasil a situação é inversa. O desejo de continuidade é evidente: Dilma chegou perto da maioria absoluta, Serra colocou o Lula na propaganda, e uma das forças de Marina foi ter sido ministra do Lula. A aprovação do governo é altíssima.

O voto na Marina é um voto de continuidade, com cobrança de ajustes de percurso – muitas das quais perfeitamente apropriadas. Se Marina servir para impor uma derrota a Lula, estará claramente subvertendo o sentido do voto que recebeu. Se ela desse a vitória a Serra, quando o novo governo chamasse a legião de senadores do DEM desempregados para o ministério, ou desse a Agricultura para o Ronaldo Caiado, a marca Marina Silva seria ferida de morte.

Marina entende mais de política do que a gente, e é por isso que ela deu um couro em todo mundo e nós estamos aqui escrevendo blog. Mas, se ela quiser meu conselho, é esse que dou: fique neutra, garanta que o PV não vai usar sua imagem quando negociar seu preço (meu palpite: dois vales-transportes e uma ficha telefônica) com Serra, e vá pra Búzios curtir a praia.

4.

Resumindo: fiquei puto de não termos levado no primeiro turno, mas ficarei felicíssimo de fazer concessões a Marina Silva. De agora em diante, podemos dizer à bancada do desmatamento que o outro lado do debate tem 20 milhões de votos, e isso todo mundo respeita.

Parabéns de novo à candidata verde, e fica meu apelo para que o PT dê uma esverdeada, que será muito bem-vinda.

PS: mais uma vez, derrotado por Amiano Marcelino (agora reforçado pelos sempre alertas Alexandre Nodari e Flávia Cera). Maldito. Eu teria conseguido, se não fosse por esses garotos intrometidos [é a deixa para tirarem minha máscara e descobrirem que eu sou o Japajato].

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Relembrando. Publicado em Agosto de 2009 na blogosfera sobre os personagens da eleição presidencial

A Candidatura Marina Silva
Aug 21st, 2009 by NPTO.

Marina Silva acaba de divulgar a carta de desfiliação do PT, o que mais ou menos garante que será mesmo candidata a presidente em 2010. Diz a carta da Marina:

Tive a honra de ser ministra do Meio Ambiente do governo Lula e participei de importantes conquistas, das quais poderia citar, a título de exemplo, a queda do desmatamento na Amazônia, a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental, a criação de 24 milhões de hectares de unidades de conservação federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro. Entendo, porém, que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas.

O que é, evidentemente, verdade. Gostei do fato de que uma turma grande do PT assinou um documento bastante respeitoso (embora com algumas baboseiras) com o título “Companheira Marina”, onde se lê:

Não vemos suas angústias e dúvidas publicamente colocadas como um escândalo, portanto. Só os sectários não percebem o que a trajetória de vida e de militância política de Marina Silva significam para a afirmação da agenda socioambiental no Brasil. E, em torno desta agenda, o debate incontornável para desafiar a imaginação da sociedade na busca da qualificação do novo paradigma de desenvolvimento que desejamos para o país e para o planeta.

(…)

As esquerdas têm o dever de ouvir a voz de Marina Silva. As razões de Marina Silva. Ela, que já deu tanto à nossa geração, receba, agora, por todos os lados, a nossa mão estendida. As mãos que teceram ao longo de três décadas a rede de sonhos e esperanças que nos mobilizou a todos; a capacidade de organizar nossa ação na base da sociedade para reivindicar direitos sociais por meio da CUT; levantar bandeiras ambientais como nos “empates” liderados por Chico Mendes para deter a voracidade dos desmatadores da Amazônia; ou para formular e conduzir políticas públicas de desenvolvimento sustentável no Ministério do Meio Ambiente, liderados por ela. Nós que já sonhamos tanto por uma sociedade de harmonias, livre das opressões, precisamos também saber compor com as harmonias da Terra.

Bacana. Ninguém vai me ver dizendo que Marina Silva é uma vagabunda desmiolada reacionária a serviço do programa criacionista do Serra (embora ela tenha mesmo falado essa atrocidade sobre criacionismo). Se ela não tiver credibilidade diante dos petistas, quem terá? E não saiu queimando as pontes, como fez Heloísa.

Agora, daí a eu votar nela em primeiro turno, vai uma distância. Há coisas ainda a esclarecer a respeito da candidatura Marina Silva.

1.

Embora comparações com Obama estejam aparecendo aqui e ali, há uma diferença fundamental entre Obama e Marina: Obama sucede Bush, um desastre político apoplético, vindo do outro lado do espectro político, que lançou a maior potência da história moderna em uma guerra caríssima e politicamente improdutiva, assistiu passivamente a formação da bolha imobiliária, e destruiu seu próprio partido elevando a posições de liderança ideológica seus elementos mais fanáticos. Marina Silva sucederia 16 anos de bons governos brasileiros, sendo que o último, saído do seu próprio lado do espectro político, foi bastante moderado, e, se tiver ameaçado a sobrevivência do seu partido, terá sido por excesso de compromisso, não por falta.

O fascínio despertado pela candidatura Marina vem, sem dúvida, de não se ter deixado corromper por todos esses compromissos. Mas a questão é: além de não ter se contaminado por aquilo em que o PT piorou, ela teria se deixado “contaminar” por aquilo em que o partido melhorou notavelmente?

Penso, antes de tudo, na política econômica. Qual o grau de Paloccidade de Marina? Pretende combinar política econômica responsável com distribuição de renda bem planejada e fiscalmente sustentável? Se Marina ainda representar aquelas besteiras que a gente falava nos anos 80, não dá nem pra começar a conversar. Aparentemente, há um esforço para atrair o PSOL para uma aliança. Se o PSOL teimar em ser o que foi até agora (o “Partido das besteiras que a gente falava nos anos 80″), isso praticamente elimina qualquer possibilidade de uma candidatura Marina viável, ou, creio eu, desejável.

Mas há mais. Como bem disse o Alon, os verdes brasileiros acabaram se tornando uma federação de vetos: são contra os transgênicos, as hidrelétricas, a energia nuclear, o agronegócio, mas não é muito fácil saber o que fariam ao invés disso tudo. Por exemplo, estou convencido que o maior aliado dos verdes é o progresso tecnológico. Qual seria a política de inovação dos verdes, por exemplo, com relação à biotecnologia? Falta um programa verde propositivo, embora, devo admitir, alguém que simplesmente impeça o desmatamento da Amazônia já me parece simpático.

Enfim, essa é a primeira coisa a se dizer sobre a candidatura Marina: se não representar um aggiornamento ideológico dentro da esquerda, não me interessa. Se representar, sou todo ouvidos.

2.

Me desespera que haja gente, e ainda gente que é paga para dar opinião sobre política, dizendo, “ah, finalmente uma pessoa honesta!”. Se você acha que o problema da corrupção no Brasil é que Lula ou FHC são cleptomaníacos, você provavelmente é uma mula, porque a outra desculpa – absoluta desinformação – dificilmente se aplica a quem lê blog de política como este.

A corrupção que alimenta nosso noticiário é um mecanismo de cooptação de apoio de parlamentares e forças políticas estaduais que se consolidaram em períodos não-democráticos da história brasileira (que é quase toda não-democrática). Esses grupos mantém seu poder através da distribuição seletiva de favores em correntes de apoio parlamentarista, que vão da distribuição de um cargo a um aliado, em uma ponta, até o cabo eleitoral que garante 1000 votos em troca de uma grana, terminando no eleitor pobre que recebe algum favor do cabo eleitoral.

(Há outro tipo de corrupção, envolvendo lobbies e contribuições de campanha, que é mais difícil de combater, mas não vamos tratar disso aqui; basta dizer que é mais ligado ao primeiro tipo do que se pensa)

Se Marina Silva ganhar a presidência, vai ter que montar uma maioria parlamentar. No momento, os dois grandes blocos são PT-PMDB e PSDB-PFL. É possível que Marina governasse primeiramente com a turma do bloquinho (PDT-PCdoB-PSB), mas ainda precisaria de dois partidos grandes. E PMDB e PFL só podem ser conquistados com os métodos de sempre.

De maneira que a honestidade pessoal de Marina (na qual acredito sinceramente) não indica qualquer mudança fundamental no funcionamento dos mecanismos de corrupção que caracterizam a política brasileira. Os dois últimos presidentes brasileiros são, provavelmente, pessoalmente honestos, mas acabaram presidindo sobre governos corruptos pela necessidade de conquistar maiorias parlamentares para, enfim, governar.

O que nos leva a nosso próximo ponto.

3.

Se você acha que a candidatura Marina Silva é só para marcar posição a favor do meio-ambiente, pule para o ponto 5. Vamos aqui supor que ela tenha chance mesmo de ganhar, e precise se preocupar com governabilidade.

Excluídas as alianças citadas no ponto 1, Marina Silva precisaria, para governar, de um reordenamento completo das forças políticas brasileiras. Se não for para fechar com PMDB e PFL, precisaria fechar com PT e PSDB ao mesmo tempo.

E isso ela já vinha sacando faz tempo. No bom artigo publicado pelo nem-sempre-lúcido Sirkis na Folha de domingo retrasado, isso é dito claramente:

No entanto, Marina tem um potencial além do eloquente discurso de primeiro turno para depois arrancar compromissos programáticos.
Ela pode contribuir para a superação dessa abissal fenda da política brasileira: a compulsória aliança das duas vertentes da social-democracia com as oligarquias políticas na busca da governabilidade.
PT e PSDB disputam, como lucidamente notou em certa ocasião o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “quem vai liderar o atraso”.
No instável sistema político-institucional produto do nosso “voto jabuticaba”, proporcional personalizado, ambos dependem do clientelismo e do fisiologismo profissional para governar. Melhor fariam em se aliar em algum momento, mas, como a disputa central se dá entre eles, isso dificilmente acontecerá, e a rivalidade entre eles é feroz.
Nós, verdes, nos relacionamos com ambos e reconhecemos o papel que respectivamente tiveram nos inegáveis avanços econômicos e sociais vividos pelo Brasil desde 1994.
Marina é bem talhada para promover uma nova governabilidade com ambas as vertentes que, enfim, supere essa polarização bizarra, isole o atraso e abra caminho para uma reforma do nosso sistema eleitoral, secando sua dependência do clientelismo, do fisiologismo e do assistencialismo, fontes maiores da corrupção, do excesso de cargos comissionados, do mau uso da máquina pública e da compra de votos, direta ou via centros assistenciais.
O direito de ter um sonho de país e lutar para tirá-lo do papel é inalienável. Os verdes não abrem mão dele, mas também reconhecem que isso transcende suas limitadas fileiras.
Nesse momento, é impossível saber, de fato, se Marina será ou não candidata. É uma decisão difícil, de fé íntima, que há que aguardar.
O caminho político, no entanto, é claro: não é anti-PT. Nossa fraternidade, muito particularmente com o PT do Acre, remonta a Chico Mendes.
Também não é antitucanos.

Bom, se for isso, e se Marina fizer a necessária atualização programática, não tem como não votar nela. Imaginem um governo que tivesse tudo de bom dos últimos quinze anos, em que eu não precisasse aguentar o PMDB, nem o PFL, nem a frente mensalão (PL, etc.): pra mim tá ótimo.

Mas alguém já combinou com os caras? Eu gostaria de ver uma aliança entre PT e PSDB, ainda mais sob inspiração ecológica (é uma espécide de dream team NPTO), mas há diversas dificuldades para isso acontecer:

Em primeiro lugar, PT e PSDB ficaram tanto tempo como as duas forças polarizadas da política brasileira que, provavelmente, os interesses empresariais e corporativos rivais já se alinharam entre um ou outro. Embora a divergência programática entre os dois partidos seja negociável, não sei se esses interesses são acomodáveis. Mas isso é politics as usual, o cara que faz esses acordos sabe que vai ser traído se a maré política mudar, de maneira que talvez não seja o maior obstáculo a nada.

Em segundo lugar, a aliança entre PT e PMDB ainda é mambembe, e o PT nos estados está louco para desfazê-la. Mas a aliança PSDB/PFL é bastante consolidada: na eleição passada o PSDB entregou a prefeitura da maior cidade do país para o PFL, que não teria a menor chance de chegar em sexto concorrendo sozinho. O PFL entraria na base do governo Marina Silva? Se não, aceitaria de bom grado ser marginalizado dessa forma?

Uma coisa que eu tenho achado interessante é o pouco entusiasmo demonstrado pelo Ex-Blog do César Maia com relação a Marina. Embora tenha feito as reverências de praxe na oposição, o Ex-Blog a comparou a Rigoberta Menchu, Nobel da Paz que concorreu na Guatemala e levou um toco miserável. Os pensantes no PFL sabem que, se a aliança agora for PSDB/PFL/alguma coisa meio esquerdosa centrada na Marina, eles perdem espaço rapidamente.

O PSDB, por seu lado, arriscaria essa aliança em nome de uma aposta como a nova coalizão Marina Silva? Uma coisa é os tucanos apoiarem Gabeira em um Estado em que são ridiculamente fracos e o prefeito do PFL não tinha nenhum sucessor natural. Outra é colocar em risco o acordo todo. Posso estar errado, mas vejo mais entusiasmo pela Marina no Aécio do que no Serra, que é o candidato mais orgânico da aliança.

Finalmente, porque o PT, com uma ótima candidata como a Dilma, um governo extraordinariamente popular como o do Lula, e uma oposição batendo cabeça, acharia que é hora de redefinir o jogo todo? Há um motivo, claro, escapar do PMDB, manter o partido nos Estados. Mas isso seria suficiente?

Minha impressão: se um dos dois lados da polarização atual não implodir até 2010, Marina não consegue fazer sua nova coalizão. Posso estar errado, é claro. Mas, mesmo supondo que não ganhe, que papel teria na eleição?

A propósito, o que escrevi acima já revela minha opinião sobre os que falam de Marina como algo contra PT e PSDB, como faz a Istoé essa semana. Não, o Brasil não é só PT e PSDB. Tem também o PFL e o PMDB. Há, é claro, uma enorme diversidade ideológica e política na população, mas, salvo golpe de Estado, é necessário construir a maioria no congresso com o que temos. E, entre os que temos, PT e PSDB são os melhorzinhos.

[Vale dizer, não é óbvio que seria bom se os dois melhores partidos estivessem do mesmo lado; mas isso é assunto para outro post]

4.

Supondo que Marina não ganhe, qual seu efeito na eleição?

Bem, é óbvio que tira voto de Dilma. Não tenho certeza sobre quantos votos tira, e pode ser que sejam bem poucos. Embora não estejamos satisfeitos com as alianças políticas, os eleitores do Lula estão razoavelmente satisfeitos com o governo para não tentar nada de muito diferente, a não ser, é claro, que Dilma imploda e não vá (ou perigue não ir) para o segundo turno.

Em um artigo que jamais poderá ser criticado por ter qualquer qualidade que seja, Danuza Leão argumenta o seguinte:

Lembro de quando Regina Duarte foi para a televisão dizer que tinha medo de Lula; Regina foi criticada, sofreu com o PT encarnando em cima dela -e quando o PT resolve encarnar, sai de baixo. Não lembro exatamente de que Regina disse que tinha medo -nem se explicitou-, mas de uma maneira geral era medo de um possível governo Lula. Demorei um pouco para entender o quanto Regina tinha razão. Hoje estamos numa situação pior, e da qual vai ser difícil sair, pois o PT ocupou toda a máquina, como as tropas de um país que invade outro. Com Dilma seria igual ou pior, mas Deus é grande.
Minha única esperança, atualmente, é a entrada de Marina Silva na disputa eleitoral, para bagunçar a candidatura dos petistas. Eles não falaram em 20 anos? Então ainda faltam 13, ninguém merece.
Seja bem-vinda, Marina. Tem muito petista arrependido para votar em você e impedir que a mestra em doutorado, Dilma Rousseff, passe para o segundo turno.

Bem, como seria de se esperar, se Danuza Leão for a estrategista dos caras, não precisamos nem entrar em campo. Imaginem Marina Silva lendo isso e pensando, “Ei, é impressão minha ou ela não está torcendo pra eu ganhar?”, imaginem Serra lendo isso e pensando, “Ah, beleza, vou eu para o segundo turno com alguém que vai ter todos os votos da Dilma e tem mais carisma, valeu mesmo, Danuza”, imaginem Alckmin pensando “Ufa! Não vou ser só eu que vou ter menos votos no segundo turno do que no primeiro”, imaginem o Lula pensando “Uza, Uza, Uza! Viva a Danuza!”.

Como já disse, só acho possível Dilma não ir para o segundo turno se implodir sozinha. Se isso acontecer, acho bom ter a Marina para votar como plano B. Se isso não acontecer, e Marina for para o segundo turno ao invés de Serra, ainda acho que Dilma ganhe, a não ser que Marina faça um excelente trabalho de conversão à responsabilidade econômica (era disso, Danuza, que Regina Duarte tinha medo, e estava 100% errada). Se perder, acho que devemos apoiar seu governo e disputar a hegemonia lá dentro. Mas não sei se precisamos nos preocupar com isso. Se Marina ameaçar Serra, as Danuzas Leão do caderno de política a derrubam.

É possível que Marina force um segundo turno? Sim, mas segundo turno provavelmente vai acontecer, mesmo. E, se for só por causa dela, paciência. O que eu acho é que o eleitorado que sair da Dilma para ela volta no segundo turno. E não sei se algumas pessoas desiludidas com o PT não voltariam a votar na legenda se Marina a apoiasse no segundo turno, o que acredito que faria (posso estar errado, claro). E não sei se a pressão de sua candidatura não forçaria o PT em direções que eu acharia bem-vindas, supondo, é claro, que Marina não concorra como populista ou fanática ambientalista.

Em suma, o pior que o PT pode fazer agora é hostilizar uma provável aliada de segundo turno. Se Marina resolver partir para a ignorância, mudamos de estratégia. Mas por enquanto, a polarização Dilma vs. Marina só interessa a Serra.

5.

Enfim, vamos ver o que a dona sabe fazer.

PS: aproveito para manifestar meu nojo absoluto dos órgãos da grande imprensa falando de Marina como símbolo do PT dos “bons tempos”. Eu era do PT nos bons tempos, e ninguém nessa galera era exatamente nosso amigo.

PSTU: seria ridículo fazer o que o Dirceu sugeriu e pedir o mandato da Marina de volta, mas não me lembro de ver a mesma indignação na época em que o PFL começou com a idéia de pedir mandato de volta.

UPDATE: Hoje no Ex-Blog do CM, começou a porrada mais explícita em Marina Silva.
UPDATE2: No Controvérsias Econômicas, post bacana sobre o assunto.

Viralize:

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0 Vote up Vote down andre lopes · 58 weeks ago
Por que seria ridículo pedir o mandato de volta? Que fato novo ocorreu para que a desfiliação se desse agora? Candidatar-se por outro partido não me parece justificativa válida para a infidelidade.
Ela deveria ter sido punida pelo partido ao abandonar o Ministério (há mais de um ano), da maneira mais politicamente desastrosa para o Governo.
Como candidata à presidência, ela merece menos atenção do que a Heloísa Helena. Reply
5 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down André · 58 weeks ago
Sobre a aliança entre PT e o PSDB, o Pomar escreveu um texto não de todo desprovido de razão que lembra que o que opõe PT e PSDB não é apenas a circunstância e a inércia de terem se oposto por tanto tempo, mas projetos de país e sociedade de fato diferentes e opostos. Um é direita e o outro, apesar dos pesares, ainda é esquerda. Ou o PT se neoliberaliza ou o PSDB quebra um pouco pra esquerda, ou não há aliança possível entre essas frentes. Qual será o mais provável?

Confesso que desconheço a situação de BH e do Acre, onde uma aliança entre PT/PSDB parece existir em algum nível, mas desconfio de uma proposta assim em nível nacional. Reply
6 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Maurício Caleiro · 58 weeks ago
Ótimo artigo, muito equilibrado e com boa argumentação. Só achei curiosa a afirmação de que "PMDB e PFL só podem ser conquistados com os métodos de sempre" - como se PSDB e PT pudessem ser conquistados por métodos outros..santa ingenuidade. Reply
1 reply · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Cé Saint-Shu · 58 weeks ago
Foi a coisa mais inteligente que li na semana :) Reply
1 reply · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down João Villaverde · 58 weeks ago
Ótima análise. O artigo lança o debate "Marina x Dilma x Serra 2010" em bases inteligentes, o que é ótimo e afasta os partidarismos burros.
E parabéns pela porrada na Danuza anta Leão!
Abs Reply
1 reply · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Antonio Barros · 58 weeks ago
Excelente artigo. Isso sim merecia estar estampado nos principais jornais e websites do Brasil. Isso sim é análise política.

Parabéns! Reply
1 reply · active 58 weeks ago Sarney fica, Azeredo continua, Marina sai « políticAética

[...] A Candidatura Marina Silva [...]
0 Vote up Vote down Arthur · 58 weeks ago
Excelente artigo. Escrevi no meu blog sobre os impactos da candidatura Marina. a idéia básica é que salvo a possibilidade (que por mais que te agrade me parece ultra remota) dela ir para o segundo turno sua candidatura muda muito pouco o jogo eleitoral. Como você acho que Dilma só não vai para o segundo turno se implodir sozinha (e se for para isso acontecer que seja antes de sua candidatura se oficializar para o PT sacar um outro nome da cartola - Fernando Haddad é o preferido desde que vos escreve). E num segundo turno é dificil imaginar que mais votos de Marina, Heloisa, etc migrem para o Serra do que os votos que ele naturalmente teria entre os eleitores dessas candidatas em um primeiro turno sem elas.

Abs Reply
2 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down João Paulo Rodrigues · 58 weeks ago
Excelente post. Como já escreveram acima, muito acima das Catanhedes, Mervais e Kramers da vida.
Só lamento não comungar com sua esperança de uma aliança PT-PSDB. Não que também não fosse meu mundo ideal em vista da nossa realidade. Mas, ao contrário do que escreveu o André e na linha do que você mesmo registrou, o impedimento de anos de enfrentamento mutuo (no gênero oposição desleal), a consolidação de personalismos opostos (Lula x FHC x Serra) e o enrijecimento de bases sociais próprias com interesses distintos, se não antagônicos (classe média do sul-sudeste x funcionalismo público) bloqueiam a aliança.
Em certo sentido, o próprio post ilustra esta dificuldade. A ideia da aliança entre PSDB-PT aqui no blog me dá a impressão de repetir o que se deu em 93: estamos abertos, mas desde que sejamos a cabeça da chapa. E acho que isso se repete entre a imensa maioria dos poucos petistas que pensam nessa possiblidade. Algum votaria numa hipotética chapa Serra Presidente Dilma vice?
Bom, mas tudo isso, de certa forma, ganha realmente ares de masturbação intelectual, nas palavras do sutil e falecido Serjão, quando me parece já definido que Dilma já ganhou. Reply
2 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Lauro Mesquita · 58 weeks ago
Ótimo texto, acho que esse desejo de se ver livre de PMDB e PFL, também está muito presente no discurso do Ciro. Outro dia assisti uma entrevista do Sócrates com ele em que ele dizia isso com todas as letras. Mas pra uma coisa dessas vingar eu não sei o que seria necessário, sem dúvida nenhum um dos objetivos é reforçar a campanha legislativa mais do qe nunca, mas não só. O problema é a construção de uma aliança anti-atraso. A campanha eleitoral pode ser um ótimo momento pra construção desse discurso.

http://www.youtube.com/watch?v=vbzqRgF0JN4 Reply
2 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down SLeo · 58 weeks ago
Nosbons tempos do PT, eu estava em Brasília e o governo acusava a Folha de S. Paulo de ser petista, caro NPTO. Reply
3 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Fabio · 58 weeks ago
Marina é pior que Heitor! Reply
0 replies · active less than 1 minute ago 0 Vote up Vote down Fabio · 58 weeks ago
Eu não tive saco de ler essa porra toda não, tá maior que post do Reinaldo Azevedo. Mas concordo com vc que a Marina não vale o meu voto se ela seguir com o discurso econômico do PSOL. Aliás, seria um desastre. E tá todo mundo na imprensa romanticamente passando a mão na cabeça de vento dela como a PTista que não se corrompeu... E de que adianta ser incorruptível e uma mula econômica? Preservar a amazônia à custa de jogar o país 50 anos pra trás? Não obrigado. Aliás, eu sou do tipo que acha que se tiver que detonar a amazônia pra desenvolver o país tudo bem, a gente pode sempre bancar uma ong pra preservar as florestas do Senegal e da Indonésia depois!!!

Agora, preciso tirar meu chapéu pra Danuza... dizer que a Dilma Dragão é "mestre em doutorado" me fez dar gargalhadas! Reply
3 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Gaius Baltar · 58 weeks ago
Parabéns, NPTO, análise excelente. Observações todas muito interessantes. Talvez a próxima eleição vá ser bem mais interessante do que se prenunciava até então. A candidatura da Marina Silva poderá trazer novos desafios para os canditos do PT e do PSDB, ao menos no discurso para agradar as classes médias, que progressivamente estão se tornando mais sensíveis aos problemas do meio-ambiente, haja vista a presença incessante do tema nas televisões.
Se o Ciro também se lançar, o que acho que acontecer, teremos uma disputa mais acirrada e perigosa para o PT, pois, a existir um mínimo de lógica nas escolhas eleitorais (o que vem sendo desmentido pelas ciências do da mente e do comportamento), ele deve dividir votos no campo da esquerda. Reply
3 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Renata · 58 weeks ago
Em um artigo que jamais poderá ser criticado por ter qualquer qualidade que seja, Danuza Leão argumenta o seguinte:

Lembro de quando Regina Duarte foi para a televisão dizer que tinha medo de Lula; Regina foi criticada, sofreu com o PT encarnando em cima dela -e quando o PT resolve encarnar, sai de baixo. Não lembro exatamente de que Regina disse que tinha medo -nem se explicitou-, mas de uma maneira geral era medo de um possível governo Lula. Demorei um pouco para entender o quanto Regina tinha razão. Hoje estamos numa situação pior, e da qual vai ser difícil sair, pois o PT ocupou toda a máquina, como as tropas de um país que invade outro. Com Dilma seria igual ou pior, mas Deus é grande.
Minha única esperança, atualmente, é a entrada de Marina Silva na disputa eleitoral, para bagunçar a candidatura dos petistas. Eles não falaram em 20 anos? Então ainda faltam 13, ninguém merece.
Seja bem-vinda, Marina. Tem muito petista arrependido para votar em você e impedir que a mestra em doutorado, Dilma Rousseff, passe para o segundo turno.

Bem, como seria de se esperar, se Danuza Leão for a estrategista dos caras, não precisamos nem entrar em campo. Imaginem Marina Silva lendo isso e pensando, “Ei, é impressão minha ou ela não está torcendo pra eu ganhar?”, imaginem Serra lendo isso e pensando, “Ah, beleza, vou eu para o segundo turno com alguém que vai ter todos os votos da Dilma e tem mais carisma, valeu mesmo, Danuza”, imaginem Alckmin pensando “Ufa! Não vou ser só eu que vou ter menos votos no segundo turno do que no primeiro”, imaginem o Lula pensando “Uza, Uza, Uza! Viva a Danuza!”.

Esse trecho foi sensacional.
Há tempos não leio nada tão lucido. O texto da Danuzza é piada.
parabens pelo excelente e lucido post. Reply
1 reply · active 58 weeks ago leituras e reflexões para o fim de semana « Travessias

[...] por Celso Rocha de Barros, a leitura de uma extensa análise sobre esse primeiro momento da candidatura Marina Silva e as possíveis alianças que ela poderá vir a [...]
0 Vote up Vote down Fernando · 58 weeks ago
Por esse papinho furado (corrupção é culpa do Congresso, a culpa é dos eleitores, que não deram 300% das cadeiras no Congresso para o PT, apontar a responsabilidade do presidente nos desmandos do governo dele é errado-já fazer isso na época do FHC é que era certo, mas agora, pensando bem, também era errado-, os eleitores têm que reeleger os senadores, como o Mercadante, que apoiaram a corrupção ou estarão fazendo o jogo do PFL), já se vê que a Dilma não vai mais ser a candidata do PT e dos aliados à presidência. Vai ser o Maluf. Só espero que, até a eleição presidencial, vocês já tenham criado desculpas melhores para malufar porque essas suas são de amargar. Entre os coronéis do DEM/PSDB e a esquerda collorida-malufista, prefiro Marina. Reply
10 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Fernando · 58 weeks ago
"aproveito para manifestar meu nojo absoluto dos órgãos da grande imprensa falando de Marina como símbolo do PT dos 'bons tempos'. Eu era do PT nos bons tempos, e ninguém nessa galera era exatamente nosso amigo."
E daí? Sarney, Collor e Maluf também não eram, eram? Vocês superaram o nojo-justificadíssimo, aliás- dessas figuras, não superaram? Agora, são até amiguinhos. A diferança é que o PT de hoje é o dos bons tempos... para Maluf, Collor e Sarney. Reply
0 replies · active less than 1 minute ago 0 Vote up Vote down Frank · 58 weeks ago
Nada a acrescentar ao q foi dito - em síntese, Marina Silva candidata não muda nada, pois o q retira no 1o turno, devolve no 20 -, mas registrar q fiquei uns dias sem aparecer, e vejo essa enxurrada de excelentes posts.

Parabéns, NPTO. Está enfileirando, ao lado do Alon, a minha lista de blogs da Esquerda esclarecida. Reply
1 reply · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Hugo Albuquerque · 58 weeks ago
NPTO,

Uma eventual candidatura Marina pelo PV seria nada mais que uma manobrinha do "atraso", ora aliado a Serra, para prejudicar a candidatura Dilma - enfim, serviria para roubar votos de um eleitorado centrista que ainda está em disputa. O discurso de Marina é bonitinho e interessa nesse sentido, mas, obviamente, se ela ameaçar subir nas pesquisas seria prontamente sabotada porque todos os grupos de interesse ligados ao agronegócio querem ouvir falar no nome dela.

A única coisa positiva que eu vejo na candidatura dela é, justamente, trazer à baila o debate sobre questões ambientais que passaria provavelmente desapercebido com Serra e Dilma sozinhos - e talvez isso justifique sua candidatura.

Quanto à problemática do funcionamento do Congresso Nacional, trata-se mesmo do agravamento de um quadro que em parte decorre do nosso sistema de voto, mas também do dano que os anos de ditadura causaram tanto no modo de fazer política parlamentar quanto no jeito de pensar e praticar a política partidária no nosso país.

Teríamos um Brasil melhor se PT e PSDB estivessem juntos? Eu não sei, sou muito cético em relação ao PSDB - ter piorado mais do que o PT nos últimos dez anos não é pra qualquer um não...A própria degradação política de Serra, acentuada nos últimos anos, me provoca mais pânico ainda.

Venho de uma geração que viu o fracasso do jovem sistema partidário do seu país - sim, inclusive do PSOL que despontou com alguma possibilidade de ser algo, mas está patinando. Por ora, o máximo que eu consigo fazer é torcer para que o PT pare de piorar e pare que o PSOL consiga amadurecer - sobre o PSDB, vejo ele como um PMDB mais coeso ou um DEM mais urbano e nada mais. Reply
1 reply · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down Fernando · 58 weeks ago
Ha, ha, ha. O desespero dos malufistas-históricos e convertidos- diante da candidatura de alguém que não se comprometeu com a roubalheira é hilária. Reply
4 replies · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down gatoprecambriano · 58 weeks ago
Uma aliança estratégica entre PT e PSDB, talvez fizesse sentido lá atrás, há uns bons 15, 20 anos. Nunca rolou entre outras razões porque ambos os partidos são paulistocentricos, suas bases, e seus quadros mais "importantes", são de SP, onde ambos sempre travaram uma disputa feroz. Algum tipo de acordo a nivel nacional só teria sido possível, se o PT paulista topasse engolir a pílula que sempre receitou às outras regionais (inclusive enfiando o "remédio" goela (ou por outros orifícios) abaixo a seco). Só que as ambições dos caciques locais, inclusive o Luis Inácio, nunca o permitiram. Com isso as querelas paulistas entre os dois sempre ganharam dimensão nacional.
É claro que isso não isenta os tucanos da responsabilidade de terem caminhado alegremente para a aerobicidade neoudenista. Reply
6 replies · active 57 weeks ago 0 Vote up Vote down Hélio M. · 58 weeks ago
Hitler e Stalin. Stalin e os Aliados Ocidentais. Hitler e Rohm. Hitler e Chamberlain. Hitler e todo mundo, menos Churchill, que não era bobo. Stalin e todo mundo, menos Trostsky, que, apesar do picador de gelo na cabeça, não era bobo. Caim e Abel. Tiradentes e Silvério dos Reis. Os membros dos Triunviratos. Otelo e Iago. Hamlet e Claúdio. Edson e Tesla. Pelé e seus sócios. Castelo Branco e Lacerda. Pimenta Neves e Sandra Gomide. Enfim, as chances de uma aliança pacífica e duradoura são evidentes. Reply
1 reply · active 58 weeks ago 0 Vote up Vote down gatoprecambriano · 57 weeks ago
E não foi com "picador de gelo", foi com martelo de escalada, btw. Reply
3 replies · active 57 weeks ago 0 Vote up Vote down Arthur Golgo Lucas · 46 weeks ago
Camarada NPTO, lê os artigos 39 e 53 do estatuto do Partido Verde e descobrirás por que o PV não é uma opção séria no cenário político brasileiro.

Não é um inimigo dos verdes quem informa isso: eu fui fundador do PV no Rio Grande do Sul, estive afastado do partido por muitos anos e quando resolvi retornar encontrei aquelas aberrações e decidi permanecer distante - como qualquer criatura honesta com pelo menos dois neurônios funcionais deveria fazer.

domingo, 3 de outubro de 2010

NO DIA DO VOTO VIVA A CULTURA POPULAR BRASILEIRA

Dilma e a Democracia

Artigo de Dilma Rousseff publicado neste domingo na Folha. Segundo o jornal, José Serra e Marina Silva foram convidados a escrever e não o fizeram.

Democracia e união para construir o futuro

DILMA ROUSSEFF

O Brasil dará neste domingo mais uma demonstração da nossa vitalidade democrática. O mundo nos observa na expectativa de confirmar a extraordinária evolução do país nos últimos anos.

Somos hoje capazes de vencer o desafio do crescimento sustentado, inclusive ambientalmente, e de combater a desigualdade, promovendo distribuição de renda e justiça social.

Realizadas com ampla liberdade e garantias plenas para milhares de candidatos e 136 milhões de eleitores, as eleições reafirmam a característica mais notável do novo Brasil que está surgindo.

Trata-se do fato de que, em nosso país, as grandes transformações econômicas, sociais e políticas transcorrem no mais absoluto processo democrático. Democracia é um valor que nos distingue e nos qualifica no cenário internacional.

A conquista da democracia e seu constante aperfeiçoamento relacionam-se diretamente aos avanços do país nos últimos anos. É profundamente democrática, por exemplo, a ascensão à cidadania de 28 milhões de brasileiros que saíram da miséria, no governo do presidente Lula, graças ao crescimento econômico e a programas sociais abrangentes e eficazes, como o Bolsa Família, o Luz Para Todos e o Minha Casa, Minha Vida.

Nossa política econômica é pautada por um sentido inequívoco de inclusão -desde a valorização do salário até a multiplicação da oferta de crédito, além da retomada do investimento proporcionada pelo PAC.

Adotando medidas que incentivam a produção e o acesso ao consumo, conseguimos impulsionar o mercado interno em nova e poderosa dinâmica, além de revigorar o comércio internacional e multiplicar as exportações.

Do ponto de vista social, do olhar que caracteriza nosso projeto para o país, o resultado dessa política foi a criação de 14,5 milhões de empregos com carteira assinada, com a ascensão de 36 milhões à classe média -uma nova classe média, que incorpora ao mundo do trabalho e da geração de renda cidadãos de fato e de direitos.

Estamos alcançando um novo patamar dos direitos fundamentais, em que a noção de liberdade ultrapassa a justa possibilidade de reivindicar e se concretiza no direito de viver com dignidade, para mais livremente participar da vida social.

Esta evolução é revigorada cotidianamente na convivência das instituições republicanas com o exercício amplo e irrestrito da liberdade de expressão e manifestação. Por meio de suas organizações, de uma imprensa livre e de meios de comunicação e informação instantâneos, a sociedade se manifesta, influencia, critica e corrige. A inteligência é livre neste país.

Só o processo democrático seria capaz de operar transformação tão profunda, em espaço de tempo relativamente curto, num país marcado por séculos de injustiça e exclusão. Só a democracia, exercida no respeito à Constituição e ao Estado de Direito, permitirá consolidar e fazer avançar o processo de mudanças que fez do Brasil um país amado por seu povo e respeitado no mundo.

Quando a vontade soberana da maioria se pronunciar, será nosso dever unir o país, com os olhos no futuro.

Temos a oportunidade histórica de construir uma nação para 190 milhões e para os que virão depois. Reduzir o resultado eleitoral ao triunfo de uns sobre outros em nada contribuirá para essa conquista.

Contados os votos, seja quem for o vencedor, será hora de somar forças, na convivência democrática, para fazer do Brasil um país ainda melhor e mais justo, governado para todos, como é hoje, e com oportunidades para todos.

DILMA ROUSSEFF, ex-ministra de Minas e Energia e ex-chefe da Casa Civil, é candidata à Presidência da República pela Coligação Para o Brasil Seguir Mudando.