O cinema feito 100% por IA já é realidade. E agora?
'Hell Grind', que circulou em Cannes neste ano, é um dos primeiros filmes longa-metragem produzidos integralmente com inteligência artificial generativa Imagem: Divulgação/Higgsfield
Mais rápido do que você imagina, um filme longa-metragem ou série criada 100% por inteligência artificial generativa irá aparecer na sua tela. Não é previsão, é fato: as produções já estão circulando no mercado, tanto em festivais quanto nos catálogos de agentes de vendas. Já tem até animação encomendada pela Amazon. Tudo isso para assombro, empolgação e medo de muita gente na indústria do entretenimento.
O barulho ganhou forma tangível no Festival de Cannes, realizado em maio. De um lado, os organizadores traçaram uma linha em que permitem o uso de IA apenas como uma ferramenta auxiliar. Um exemplo é "John Lennon: The Last Interview", do diretor Steven Soderbergh, que teve uma exibição especial no evento. O documentário conta com cerca de 10% dos seus elementos visuais criados com a tecnologia — causando uma certa controvérsia por sua natureza híbrida.
Porém, enquanto isso, curtas-metragens totalmente sintéticas deram as caras no World AI Film Festival (WAiFF), uma mostra paralela — como outras que ocorrem no período na cidade da Riviera Francesa — reunindo curtas e experimentos visuais totalmente criados com IA. No geral, foram vídeos ainda muito crus, comparáveis aos primeiros produzidos pelos Irmãos Lumiére na infância do cinema, no final do século 19.
O evento até fez sobrancelhas se levantarem e cineastas torcerem o nariz, mas o que realmente importa para o futuro próximo ocorreu perto dali, no Marché du Film.
Parte importante do ecossistema de Cannes, o mercado é realizado desde 1959 e é ali que distribuidores, canais, estúdios e streamings do mundo inteiro negociam e adquirem direitos de exibição de filmes e séries. É dentro dele que acontece o Cannes Next, área dedicada à inovação tecnológica e novos modelos para a indústria audiovisual — e onde a inteligência artificial foi mais abraçada.
Nesse contexto, "Hell Grind" chamou a atenção — um projeto que leva a assinatura da Higgsfield AI, uma startup da área de tecnologia, e não do entretenimento.
O longa-metragem é inovador porque alega resolver um dos maiores problemas dos vídeos generativos: consistência de personagens e continuidade narrativa ao longo de seus 95 minutos de duração. Com uma equipe de cerca de 15 pessoas, teria sido totalmente produzido em apenas duas semanas. O custo, segundo os responsáveis, foi de US$ 500 mil (R$ 2,5 milhão, na cotação atual) — 80% destinado à computação. Tudo isso representa apenas a fração do esforço de um filme real que mistura ficção científica, fantasia e ação.
Houve até a exibição em um cinema de Cannes que não faz parte da programação oficial do festival — o que levou ao New York Times tratar o longa, de forma imprecisa, como parte da mostra, o que causou ainda mais controvérsia.
Até agora, não foram anunciados acordos de distribuição de "Hell Grind" — e o trailer não traz nenhuma data de estreia comercial.
O avanço em Tribeca
Se em Cannes a inteligência artificial orbitou o evento e esteve presente em estandes de venda e salas de negociações, em Nova York ela passará pelo tapete vermelho. O Tribeca Festival, fundado pela trinca Robert De Niro, Jane Rosenthal e Craig Hatkoff, anunciou na última semana que contará com o primeiro filme totalmente produzido por IA generativa em sua programação oficial.
"Dreams Of Violets" terá a sua première em 10 de junho — em uma exibição especial, fora de competição.
A diferença para "Hell Grind" é que este longa-metragem de 90 minutos é baseado em fatos. A história é sobre os protestos que ocorreram no Irã em janeiro deste ano, provocando uma escalada da repressão estatal e causando um número de mortes estimado em 7 mil pessoas. Ainda que todos os personagens sejam sintéticos, tudo é baseado em reportagens jornalísticas, fotografias e relatos de testemunhas.
"Esta é uma história muito pessoal para nós, pois vivenciamos a brutalidade no Irã. A brutalidade resultante dos protestos de janeiro nos tocou profundamente", disse Ash Koosha, CEO da Fountain O e produtor do filme, em entrevista ao Deadline. "Queríamos que nosso primeiro filme fosse dedicado a algo que acreditávamos ser mais conhecido e que o mundo precisava compreender melhor, em termos de custo humano."
Ash e o irmão, Pooya Koosha, que também assina a produção, nasceram no país do oeste asiático. Esta é a estreia deles como cineastas.
O ponto aqui é que o emprego da tecnologia ganha uma outra forma. Por conta da opressão do governo local, poucos relatos e imagens sobre os acontecimentos de janeiro ganharam o globo — isso enquanto o Irã surge nas manchetes de todo o mundo por conta da guerra contra os Estados Unidos. O cinema tradicional levaria tempo, teria custos mais altos e maiores dificuldades para reproduzir a realidade de Teerã e de seus habitantes em 2026.
Por outro lado, em apenas dois meses, a IA permitiu a criação de longa-metragem para que esse relato pudesse ser conhecido internacionalmente. De acordo com os produtores, o custo foi de apenas dois mil dólares (cerca de R$ 10 mil).
"Neste momento da história, em que tanto a inteligência artificial quanto o Irã são centrais no debate global, este filme oferece ao público uma perspectiva rara e íntima de um conflito que muitos não conseguiram ver ou compreender completamente. O que nos comoveu não foi apenas a conquista tecnológica, mas a imediaticidade emocional e a urgência da própria história", explicou Jane Rosenthal para o Deadline.
O trailer, ainda que caia em alguns dos lugares comuns dos vídeos sintéticos, surpreende por conseguir reproduzir com melhor qualidade as características das emoções humanas — e por trazer parte da linguagem do cinema europeu e de cineastas iranianos como Jafar Panahi.
Amazon entra no jogo
Se entre os filmes "live-action" as discussões ainda estão entre festivais e mercados, na animação o estágio está mais avançado.
Também na última semana, o Amazon Prime Video encomendou três séries animadas totalmente produzidas por IA generativa. Os projetos são "Cupcake & Friends", do BuzzFeed Studios; "Love, Diana Music Hunters", de Albie Hecht, ex-executivo da Nickelodeon e atual diretor de Conteúdo da pocket.watch; e "Punky Duck", de Jorge R. Gutierrez.
Todos os títulos farão parte do catálogo do Prime Video no futuro — e eles surgem a partir de uma iniciativa chamada GenAI Creators' Fund, criada como uma parceria entre a Amazon Web Services e a Amazon MGM Studios.
A estrutura é clara: une tecnologia, poder computacional, capacidade criativa e plataforma de distribuição.
Crescimento no YouTube
As ações da grande mídia e as iniciativas tanto no âmbito dos festivais quanto no mercado profissional do entretenimento precisam ser entendidas dentro de um contexto maior. É que em plataformas abertas da internet, o volume de vídeos produzidos por IA postados diretamente já é massivo.
Uma análise da Kapwing e repercutida pelo Business Insider indica que cerca de 21% dos vídeos mostrados para novos usuários no YouTube já seriam sintéticos ou na categoria de "AI slop" (lixo). Esta coluna de Splash já abordou as repercussões desse impacto não só no mercado de desenhos animados, mas também no público infantil.
Independentemente da qualidade, são conteúdos que ocupam o tempo do público — tirando assim a atenção de streamings como Netflix e Prime Video, ou até de outros modelos de entretenimento.
Usar a própria inteligência artificial para ocupar esse espaço, aumentando o volume de produção enquanto diminui custos, é uma resposta a isso que ocorre na web.
'Love, Diana Music Hunters', uma das animações totalmente feitas por IA encomendadas pelo Prime Video
'Love, Diana Music Hunters', uma das animações totalmente feitas por IA encomendadas pelo Prime Video
O Google também parece ter entendido que o excesso de AI slop é prejudicial aos seus interesses — inclusive quando toca em temas como deepfakes e informações falsas ou irreais. Nos últimos dias, um post no blog do YouTube detalhou que a plataforma trará "selos mais proeminentes" para "conteúdos fotorrealistas e significativamente alterados ou gerados por IA". A ideia, afirma a empresa, é dar o contexto necessário para os espectadores.
E agora, ChatGPT?
Como vemos, o debate está migrando. Não é mais sobre não aceitar a inteligência artificial, mas entender como ser claro sobre a sua utilização e, principalmente, em quais contextos o seu uso é justo.
Do lado do público, a indústria começa a testar os limites da aceitação. "Acredito que, enquanto o que produzirmos não for repetitivo e, de alguma forma, cansativo para o público, a IA não terá chance", disse a atriz Tilda Swinton em uma Masterclass em Cannes. A dúvida que fica, no entanto, vai além: até que ponto as pessoas preferem — e conseguem identificar — o trabalho artesanal humano?
Isso leva a uma nova camada, a mais polêmica — que vai além do simples copyright: como provar que trabalhos de terceiros, traços faciais, expressões e outros elementos não foram usados para treinamento da inteligência artificial?
E mesmo que a sociedade trace uma linha que determine que queremos atores humanos em cena, como ficam os empregos de decoradores de set, operadores de câmera, figurinistas, roteiristas, artistas de computação gráfica e tantos outros profissionais que podem ser substituídos por 2 mil dólares em tokens gastos em um data center na Virgínia ou em Barueri?
São muitas questões — e essas, nem ChatGPT, Gemini ou Claude vão conseguir te responder.
3 comentários
Paulo Eduardo Santana
Assim como os filmes 3D não decolaram, os feitos por IA também não vão muito longe. Ninguém quer ver desenho o tempo todo... as pessoas querem ver artistas reais, gente como a gente...
Rogério Barbieri
é a realidade, atores continuaram existindo, porém terão apenas a imagem vinculada ao filme, essa é a tendencia
Roberto da Silva Torres
Algum paralelo entre pinturas e as primeiras fotografias? . Esculturas esculpidas e impressões 3D? . Ferramentas diferentes para artistas diferentes? . O que mais me assusta sao as possibilidades e potencialização de narrativas, ja tão presentes no cinema comercial.
Por Renan Martins Frade
01/06/2026
